(- Quem é você? Católico, judeu, muçulmano? - Um ser humano...)
Em certo sentido, a ideia de algo superior às "religiões", "gêneros", "raças", "identidade de gênero" pode ter, no final das contas, efeitos disciplinares tremendos, porque talvez a ideia de "humanidade" possa ser campo mais plural e de disputas de significados do que se imagina. Um exemplo disso são as controvérsias quanto ao uso do véu islâmico na sociedade francesa. A concepção de "humanidade" dos franceses fazem com que o uso do véu seja compreendido como uma afronta à humanidade. Foi nesse sentido que a corte europeia endossou a Lei francesa que proibiu o uso do véu nos espaços públicos:
"Os juízes da corte, com sede em Estrasburgo, decidiram por 15 a 2 votos
que a proibição não viola a liberdade religiosa e tem por objetivo
garantir "o respeito ao conjunto mínimo de valores de uma sociedade
democrática aberta", o que inclui abertura à interação social." (retirado do sítio eletrônico http://portugues.notimerica.com/sociedade/noticia-corte-europeia-endossa-proibico-do-veu-integral-na-franca-20140701201833.html)
O que, para mim, não significa qualquer afronta à humanidade daquelas mulheres, grande parcela da sociedade francesa vê como violência de gênero. Então eu, de início, já fico reticente em comprar qualquer ideia de "humanidade", porque "humanidade" pode significar uma justificativa para que muitas pessoas, em prol de direitos humanos, realizem atos de violência e de exclusão moral. Eu já falei, vou repetir. Eu já falei, vou repetir...
Duas
considerações, antes de iniciar minha questão principal. A primeira era que eu
deveria escrever um texto para a disciplina "Análise de Sistemas
Interétnicos", que deverá ser entregue ate o dia 20 (terça-feira que vem).
A segunda é que a foto acima mostra um violão sendo estragado para tirar uma
foto. Que contraproducente (palavra que aprendi hoje).
Bem,
a foto mostra uma dessas cantoras brasileiras famosas. Adriana Calcanhotto,
gaúcha por definição, carioca por opção. Bacana, sacana, dourada, poeta, profeta.
Poderia ficar enumerando uma série de afirmações sobre esta mulher, mas vou
tentar caracterizá-la enquanto compositora de músicas. Em relação aos arranjos,
eu talvez tenha pouco a dizer. Porém, como compositora, tenho a dizer que ela
é: enumeradora, repetidora de palavras, dadaísta.
O
que eu quero dizer? Bem, apenas é uma observação que eu fiz de várias das
canções que ela escreveu. Adriana Calcanhotto utiliza-se muito do recurso da
"enumeração", ou seja, de repetir estruturas simples e/ou mudar uma palavra.
Vejamos o álbum "Senhas", de 1992. A primeira faixa,
"Senhas", começa assim:
“Eu
não gosto do bom gosto
Eu
não gosto do bom senso
Eu
não gosto dos bons modos
Não
gosto.”
Do
primeiro verso, muda de "gosto" para "senso". Desse pro
terceiro, "modos", apenas mantendo a concordância nominal. No quarto
verso, oculta-se o sujeito e retira o objeto. Uma pobreza na qualidade dos
versos, o que não é necessariamente um problema. Continuando a música, Adriana Calcanhotto
torna-se um pouco mais diversificada de palavras. Ela modifica os verbos,
apesar de manter versos na primeira pessoa do singular.
“Eu
aguento até rigores
Eu
não tenho pena dos traídos
Eu
hospedo infratores e banidos
Eu
respeito conveniências
Eu
não ligo pra conchavos
Eu
suporto aparências
Eu
não gosto de maus tratos”
O
que se observa é uma concatenação de versos com uma repetição de orações
simples na primeira pessoa. "Eu não gosto", "Eu aguento até
rigores", "Eu respeito conveniências".
Ok,
é apenas uma faixa. Mas, continuando o resto do álbum, Adriana Calcanhotto faz
diversas canções do mesmo jeito. Observe, por exemplo, “Graffitis”, que não é a
enumeração de frases de uma mesma estrutura, mas apenas de palavras,
interrompida por algumas frases:
“Por
meus passos velozes/ vapores/ suores/ sotaques/ antenas/ Antunes/ stones/ Por
meus passos ligeiros/ graffitis/ mau cheiro/ Não fosse por você eu não notava
essa cidade(...) Em meus passos, sapatos/ poeiras/ postes/ postos/ poetas/
profetas/ projetos/ notícias /negócios// Por meus passos rápidos,/ meus alvos/
meu norte/ Por minha lente meu olhar,/ meu foco/ meus olhos”
Além
dessa, a música mais enumerativa de Adriana Calcanhotto se chama “tons”:
Essas
são três canções de um álbum. Mas, se vocês forem para outros que tenham
composições originais da Adriana Calcanhotto, ela se repete. No CD “Cantada”
(2003), a gaúcha também faz, de novo, enumerações, especificamente na faixa
“Sou sua”:
Sou
sua luz/ Sou sua cruz/ Sou sua flor/ Sou sua jura/ Sou sua cura/ Pro mal do
amor/ Sou sua meia/ Sou sua sereia/ Cheia de sol/ Sou sua lua/ Sua carne crua/
Sobre o lençol/ Sou sua Amélia/ Sou sua Ofélia/ Sou sua foz/ Sou sua fonte/ Sou
sua ponte/ pro além de nós/ Sou sua chita/ Sua criptonita/ Sou sua Lois/ Sou
sua Jóia/ Sou sua Nóia/ Sua outra voz/ Sou sua/ Sou sua/ Sou sua/ Plenamente/
Simplesmente.
A
canção que sucede a essa, chamada "sou seu", também é dessa maneira
("Sou seu colombo/ seu coração/ o seu canário/ sou o seu carvão").
Talvez
seja uma visão impressionista e por isso não gostaria de ser tão enfático
quanto a um modelo único de fazer música da Adriana. Há canções que fogem
disso, como, por exemplo, “Água Perrier”, do álbum “Senhas”. Do mesmo modo, eu
não fiz uma análise de todas as músicas que ela compôs e cantou. É apenas uma
leve sensação de que ela se repete nos modos de escrever.
Em
tempo, até mesmo quando ela cantou músicas de outros autores, ela gosta do uso
dessas formas de música com palavras seguidas. O poema de Waly Salomão, chamado
“Remix Século XX” é mais um exemplo disso.
Meu blog está às moscas há um ano. Nem sei se as pessoas leem, e talvez a falta de retorno em comentários faz com que eu perca um pouco de vontade de escrever nele. Ao mesmo tempo, penso que retomar é trazer memórias e ideias que eu já nem concordo. Foi essa a sensação que eu tive quando eu li alguns textos aqui, que eu já os acho cheio de defeitos. Eu não queria fazer essa discussão meta-blogger, mas temo que seja necessária. Afinal, eu passei meses sem divulgar nada. Era muito importante retomar as ideias que as fazem presentes. E também aqui se exige uma remodelação da proposta deste blog, que eu já perdi nas memórias extensas do meu dia-a-dia. Neste sentido, creio que retomar esse blog se faz pela potencialidade de ter um leitor assíduo das ideias aqui presentes. Acho que, por ter um público-alvo mais visualizado, é possível eu conseguir me motivar a escrever. Guilherme, penso que você vai gastar um tempinho nas suas leituras do blog.
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Vamos ceder enfim a tentação das nossas bocas cruas. Sinto que a vida vai agonizando uma paixão vadia, feito uma hemorragia. Mas agora ela coagulou.
Uma ênfase tônica diferenciada no "e" de "meta" faz com que esse conjunto de letras tenha diferentes significados. Um é quase um mero prefixo, "meta", de metanarrativa, de metalinguagem, metáfora. Um /e/ fechado, por sua vez, traz o imperativo de "meter", enfiar. Escrevendo, lembro-me de que também pode ser de meta, objetivo.
Eu fico pensando o que foi a minha noite, qual foi "meta" preponderante.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Estou eu aqui com discussões novas sobre o Talal Asad. E eu fico pensando como as nossas escolhas teóricas são produtos de uma articulação com a nossa pauta de anseios políticos. Ele, ao deslegitimar noções de religião como um ópio da sociedade, mostrando que "religião" é um conceito hegemônico utilizado por "secularistas" que serve para expurgar diferentes visões de mundo, demonstra que o que se emerge é uma "não tolerância". Para quem é laico ou ateu, a religião significa apenas fetichizar, realizar rituais para ordenar o mundo e fazer suportar as desgraças da vida. E, como uma falsa consciência, ela é tolerada quanto domino da "crença", ou, como fala Emerson Giumbelli, do que se pode ser considerado "opinião". Porém, quando essa opinião mobiliza e tem efeitos no que é tido como "verdades" do mundo, tendo efeito no sistema econômico, jurídico e político, dando um sentido "religioso" ao curso natural do estado e se mostrando contrário ao que é tido como "laico", ela se torna um "problema". A religião "foge" do seu lugar. Ela "polui".
O que se apresenta é que a religião é uma categoria historicamente produzida e que explicar determinados contextos a partir dela significa uma má interpretação do ponto de vista dos nativos. O islamismo, para Talal Asad, não é compreendido pelos muçulmanos egípcios como a gente compreende o que é religião. Talvez o islão seja para os muçulmanos o que a verdade é para a modernidade. É, a partir dessa comparação, que se é possível fazer uma antropologia simétrica.
Isso, para além de uma interpretação do outro mais fidedigna, de colocar conceitos em posições de igualdade, permite também que a gente não veja o outro como falsa consciência. Não concordo com evangélicos quando estes dizem que "Deus diz que homem não pode casar com homem", mas eu não diria que ele crê e eu sei a verdade. Se a igualdade é um valor na antropologia, e se a gente quer de fato tratar as diferentes conformações sociais e culturais como uma diversidade, então é necessário, tanto epistemologicamente quanto politicamente, colocar em pé de igualdade diferentes formas de pensar o mundo.
Poesias. Eu gosto do ritmo, eu gosto da batida, das rimas. Mas eu não vejo pessoas falando na segunda pessoa. Alguns escritores assumem este tempo verbal apenas quando estão num momento escrito. Além disso, fazem analogias com universos tão distantes, quando o mais provável seria que utilizassem de analogias e metáforas banais, do dia-a-dia. "Ó, por que amastes aos que lhe faz desvanecer?", quando eu uso de palavras como "Poxa... você só gosta de quem te faz mal?". A mensagem fica mais direta, imagino, supondo que palavras que usamos com mais frequência sejam mais facilmente perceptível do que termos de difícil alcance.
Por outras razões, entretanto, que me fazem pensar que poesia não me absorve. São, em geral, bastante conceituais, com pouca narrativas e sempre voltada para ideias amorosas. Por isso prefiro ler prosa.