quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Antropologia Jurídica

Universidade de Brasília
Faculdade de Direito
Disciplina: Atualização e Prática do Direito 1 (Antropologia do direito)
Professor: Alexandre J. de M. Fernandes (lexmedeiros@gmail.com)
Horário: 3ª/5ª 19h00 às 20h40

UM CONVITE PARA JURISTAS À ANTROPOLOGIA
A dogmática jurídica, que corresponde a mais de 60% das disciplinas que compõem o currículo de direito, está repleta de concepções tidas como universalizadas e supostamente alicerçadas em valores comunitários igualmente compartilhados. Apesar disso, qualquer estudante de direito tem consciência de que muitas dos conceitos jurídicos são passíveis de contestação, na medida em que expressam ideologias ou ontologias localizadas e contingentes a contextos sociais e históricos específicos.
Entretanto, a parte majoritária dos juristas tem utilizado como ferramenta de transformação das práticas jurídicas a atividade da interpretação jurídica, procurando demonstrar como o ordenamento deve se alicerçar e, vestigialmente, como os fatos jurídicos devem se articular ao ordenamento. Em certo sentido, essa atividade expressa uma “fetichização” das normas jurídicas, pois procura transformar as práticas jurídicas por meio de discussões centradas no “dever-ser”, além de traduzir os fatos sociais por meio de categorias legais. Não é que os juristas deixem de lado a observação dos padrões sociais e culturais, mas o conhecimento sobre essas regularidades é utilizado sem rigor metodológico.
A antropologia social é uma alternativa diferente da atividade de interpretação das normas e igualmente persuasiva para transformar as concepções jurídicas. Elenco duas razões para tanto: 1) ao trazer a etnografia dos fenômenos jurídicos, sendo capaz de registrar e explicitar os imponderáveis da vida cotidiana, o ofício da antropologia mostra como as normas jurídicas ganham vida nas práticas sociais, expondo a complexidade que é o “fenômeno jurídico”; 2) o conjunto de textos produzidos pela antropologia se constitui como asserções generalizáveis que ajudam a aprimorar a percepção sobre as nossas vidas. As teorias antropológicas, uma vez internalizadas, permitem fazer com que o estudante relacione os acontecimentos das diversas práticas jurídicas a concepções gerais da humanidade e, com isso, descaracterize o senso comum autorizado no meio jurídico.

DINÂMICAS DE AULA
O curso está estruturado em semanas, que correspondem a algumas questões antropológicas. A disciplina será cursada em um ambiente de discussão, em que os estudantes, depois de lerem o texto designado, trazem algumas falas para sala de aula. Cabe ao professor realizar comentários sobre essas falas e retomar partes dos textos que julgar importante. Como se trata de uma disciplina que busca ser um fórum de discussão, é desejável (para não dizer obrigatório) que o estudante venha com a leitura prévia do texto. Pela literatura não ser habitual aos estudantes de direito, não será exigido um domínio das ferramentas analíticas da antropologia e da sociologia. Assim, caberá ao professor explicar as diferentes categorias utilizadas pelos cientistas sociais, de modo a facilitar a compreensão sobre os textos, assim como trazer algumas discussões gerais da antropologia expressas na leitura complementar. A avaliação dependerá da quantidade de estudantes presentes na turma.

PROGRAMA (sujeito a modificações)

Prólogo
OLIVEIRA, Luciano. Não fale do código de Hamurabi! A pesquisa sócio-jurídica na pós-graduação em Direito.

Aulas 1 e 2: Antropologia, ciência do humano
GEERTZ, C. 1966. A transição para a humanidade. In S. Tax (org.) Panorama da Antropologia. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura.
Leitura Complementar
DA MATTA, Roberto. 1987. A Antropologia no Quadro das Ciências. In: Relativizando: Uma Introdução à Antropologia. Rio de Janeiro: Rocco, p. 11-38.
CLASTRES, Pierre. 2013. Do etnocídio. IN: Arqueologia da Violência – Ensaios em Antropologia Política. São Paulo: Cosac Naify.

ALGUMAS QUESTÕES ANTROPOLÓGICAS
Aulas 3 e 4 – Controle social
BERGER, Peter. 2001. A perspectiva Sociológica – o Homem na Sociedade. IN: Perspectivas Sociológicas – Uma visão humanística. Petrópolis: Vozes.
MAbLINOWSKI, Bronislaw. 2003. Crime e Costume na Sociedade Selvagem. Brasília: Editora da UnB. (partes selecionadas)
Leitura Complementar
SCHUCH, Patrice. 2011. “Antropologia do Direito”: trajetória e desafios contemporâneos.
RADCLIFFE-BROWN, A. R. 1973. O Direito Primitivo. IN: Estrutura e Função na Sociedade Primitiva, Petrópolis: Editora Vozes, pp. 260-69.

Aulas 5 e 6 – Cultura e comparação
GEERTZ, Clifford. O Saber Local: Fatos e leis em perspectiva comparada [Parte 1]. IN: O saber local. Vozes: Petropólis, 1998.
KANT DE LIMA, Roberto. 2009. Sensibilidades jurídicas, saber e poder: bases culturais de alguns aspectos do direito brasileiro em uma perspectiva comparada. Anuário Antropológico/2009 (2), pp. 25-51.
Leitura Complementar
BARTH, Fredrik. 1989. The analysis of culture in complex societies. Ethnos, vol. 54: III-IV, pp. 120-142.
WOLF, Eric. Cultura: panacéia ou problema. 2003 [1994]. In: RIBEIRO, Gustavo Lins e FELDMAN-BIANCO, Bela (Orgs.). Antropologia e Poder. São Paulo: Unicamp, pp. 291-303.
LARAIA, Roque. 2003 [1986]. Primeira parte: da natureza da cultura ou da natureza à cultura. In Cultura. Um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, pp. 9-63.

Aula 7 e 8 – Pluralismo Jurídico
SANTOS, Boaventura de Souza. 2014. O direito dos oprimidos. Lisboa: Almedina. (partes selecionadas)
MAMDANI, Mahmood. Ciudadano Y súbdito. África contemporánea y el legado del colonialismo tardío. Madri: Siglo XXI Editores, 1998. (partes selecionadas)
Leitura Complementar
CLASTRES, Pierre. A questão do poder na sociedade primitiva. IN: Arqueologia da Violência – Ensaios em Antropologia Política. São Paulo: Cosac Naify.
GEERTZ, Clifford. O Saber Local: Fatos e leis em perspectiva comparada [Parte 2 e 3]. IN:____. O saber local. Vozes: Petropólis, 1998.

Aula 9 e 10 – Conflitos e simbolismo
SIMMEL, George. A natureza sociológica do conflito. In Simmel. Organizado por Evaristo Moraes Filho (Coleção Grandes Cientistas Sociais). São Paulo: Ática, pp. 122-134.
PERRONE, Tatiana. 2014. Valores morais e monetários em conflito: uma etnografia em Varas de Família. Pensata 3 (2). UNIFESP.
Leitura Complementar
CARDOSO DE OLIVEIRA, L. R. 2011 A dimensão simbólica dos direitos e a análise de conflitos. Revista de Antropologia (USP. Impresso), v. 53, p. 451-473.

Aula 11 e 12 – Trocas e reciprocidade
MAUSS, Marcel. 2013. Ensaio sobre a dádiva. São Paulo: Cosac Naify.
BEVILÁQUA, Ciméa. 2001. Notas sobre a forma e a razão dos conflitos no mercado de consumo. Sociedade e Estado (Dádiva e solidariedades urbanas), volume XVI, nº 1-2, janeiro-dezembro de 2001, pp. 306-334.
Leitura Complementar
OLIVEIRA, Luís Roberto Cardoso. 2004. Honra, dignidade e reciprocidade. Série Antropologia 344. UnB.

Aulas 13 e 14 – Sentimentos
MAUSS, Marcel. 1974. A expressão obrigatória de sentimentos. IN: MAUSS. (org. Roberto Cardoso de Oliveira). São Paulo: Ática, p. 147-154.
MELLO, Kátia Sento Sé. O Sofrimento como Recurso de Acesso ao Direito: efeitos da política de recadastramento dos camelôs em Niterói/RJ. In: Cidade e Conflito. Guardas Municipais e Camelôs. Niterói, Editora da UFF, 2011, p. 161-189.
Leitura Complementar:
FERNANDES, Alexandre. 2011. Traduzindo demandas – uma etnografia das ações de alimentos na defensoria pública de São Sebastião. Monografia de Graduação em Direito. Brasíla, UnB.

SIMIÃO, Daniel e all. Sentidos de justiça e reconhecimento em formas extrajudiciais de resolução de conflitos em Belo Horizonte. In: LIMA, Roberto Kant; EILBAUM, Lucia; PIRES, Lenin. (Org.). Conflitos, direitos e moralidades em perspectiva comparada.. Rio de Janeiro: Garamond, 2010, v. 1, p. 221-250.

Aulas 15 e 16 – Rituais
PEIRANO, Mariza. 2003. Rituais ontem e hoje. Ciências sociais passo-a-passo 24. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores.
SILVA, Kelly Cristiane da. 2000. Que venha uma nova mulher. Notas sobre um ritual feminista de atendimento a mulheres vítimas de violência. Série Antropologia (Brasília. Online), v. 283, p. 81-100.
Leitura Complementar:
GcLUCKMAN, Max. 1954. Rituais de rebelião no sudoeste de África. Série textos de aula, Antropologia 4, Brasília: Editora da UnB, 34 p.
VAN GENNEP, Arnold. 2012. Os ritos de passagem. Petropólis: Vozes.

Aula 17 e 18 – Marcadores sociais da diferença
CORREA, Mariza. 1983. Morte em família: representações jurídicas de papéis sexuais. Graal.
Sessão de filme
LESTRADE, Jean. 2001. Assassinato Numa Manhã de Domingo. Documentário (115m).
Leitura Complementar:
DEBERT, Guita. Julho-dezembro de 2010. Desafios da politização da justiça e a antropologia do direito.  Revista de Antropologia.
SCHRITZMEYER, Ana Lúcia Pastore. 2004. Sortilégio de Saberes: curandeiros e juízes nos tribunais brasileiros (1900-1990). São Paulo, Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

Aula 19 e 20 – Reprodução e parentesco
FONSECA, Claudia L. W. 2005. DNA e paternidade: a certeza que pariu a dúvida. Revista de Estudos Feministas, Florianopolis, v. 12(2): 13-34.
LUNA, Naara. 2005. Natureza humana criada em laboratório: biologização e genetização do parentesco nas novas tecnologias reprodutivas. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, 12(2): 395-417. http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v12n2/08.pdf
Leitura Complementar
RADCLIFFE-BROWN, A.R. 1973 [1941]. O Estudo dos Sistemas de Parentesco. Estrutura e função na sociedade primitiva. Rio de Janeiro: Vozes. pp. 67-114.

Aula 21 e 22 - As Hegemonias Legais: o Valor da Harmonia
NADER, Laura. 1994. Harmonia Coerciva: A Economia Política dos Modelos Jurídicos. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, Número 26.
DEBERT, Guita Grin e BERALDO DE OLIVEIRA, Marcella. julho-dezembro de 2007. Os modelos conciliatórios de solução de conflitos e a “violência doméstica. In: Cadernos Pagu (29),305-337.
Leitura Complementar:
SCHUCH, Patrice. 2008. “Tecnologias da Não Violência e Modernização da Justiça no Brasil: o caso da Justiça Restaurativa”. Civitas (Porto Alegre), v. 8, p. 498-520.

Aula 23 e 24 – Noção de pessoa e cidadania
CARDOSO DE OLIVEIRA, Luis Roberto. 2011. Concepções de Igualdade e Cidadania. Contemporânea - Revista de Sociologia da UFSCar, v. 1, pp. 35-48
DAMATTA, Roberto. Sabe com quem está falando? Um ensaio sobre a distinção entre indivíduo e pessoa no Brasil. In: Carnavais. Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. pp.179-248.
Leitura Complementar
Mauss, Marcel. 2003 [1938]. Uma Categoria do Espírito Humano: a noção de pessoa, a de “eu”. IN: Sociologia e Antropologia. São Paulo: CosacNaify.
DUMONT, Louis. 1984. O Individualismo. São Paulo: Rocco.

Aulas 25 e 26 - Resumo dos trabalhos finais 

Aula 27 e 28 - Subjetivações
GOFFMAN, Erving. 1974. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar. (partes selecionadas)
CARDOSO DE OLIVEIRA, L. R. 2008. Existe Violência Sem Agressão Moral?. Revista Brasileira de Ciências Sociais (Impresso), v. 23, p. 135-146. Acessível em: http://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v23n67/10.pdf
Leitura Complementar
ELIAS, Norberto. 2013 Os Estabelecidos e os Outsiders. Zahar Editores.

Aula 29 e 30 – Sobre etnografia
VELHO, Gilberto. 1981. Observando o familiar. Em: Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Pp. 121- 132.
CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. 2000. O trabalho do antropólogo: olhar, ouvir, escrever. Em: O trabalho de antropólogo. São Paulo: UNESP. Pp. 17-35.
Leitura Complementar
GEERTZ, Clifford. 1989. Um jogo absorvente: Notas sobre a briga de galos balinesa. In  A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC.
EVANS-PRITCHARD, E. E. 2005 [1937]. Apêndice IV: algumas reminiscências e reflexões sobre o trabalho de campo. Em: Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Pp. 243-255.
CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. 2000. O trabalho do antropólogo: olhar, ouvir, escrever. Em: O trabalho de antropólogo. São Paulo: UNESP. Pp. 17-35.


Aula 31-33 – Discussão dos trabalhos Finais

sábado, 29 de novembro de 2014

Paris 1

Paris, 6 de dezembro de 2013

Quando eu tinha 8 anos e estava cursando a segunda série do ensino fundamental, minha professora sugeriu um redação como atividade de escola. Ela propusera que escolhêssemos um país e que imaginasse como seria a viagem. Meus amigos, em sua maioria, escolheram países do Oriente, como Japão e China. Uma parte queria ir aos Estados Unidos (especificamente a Disney). Eu não. Eu escolhi a França.
Fiz a minha redação. Lembro dela muito mais porque mainha mostrou para as pessoas na casa de Vovó Paé. Pelo o que eu me lembro, mainha achou-a bastante interessante. Lembro que ela afirmou que a nota que eu tinha tirado, um 8, se devia mais pelos erros de gramática e ortografia do que pelo conteúdo, que ela achava impecável. Eu lembro qual era o erro de ortografia: era porque eu escrevia “a gente fomos”: “A gente fomos pra o rio Sena, depois a gente subimos na torre Eiffel”.
Hoje eu tenho 24 anos, ou seja, o triplo da idade de quando escrevi essa redação. E hoje eu estou em Paris. Por um desvio da rota de pesquisa (hehehe), a redação se realizou de maneira extraordinária. Conheci diversos pontos da cidade que eu desconhecia a época da redação, como o Sacre-Ceur, o Moulin Rouge (imortalizado pelo musical), Montmartre (pela Amélie Poulain). Conheci os clichês da minha redação também, como os já citados e o museu do Louvre (especificamente pela Mona Lisa). E tive brilho nos olhos por conhecer tantos outros museus, como o D’Orsay e o das Armas. Infelizmente não fui a Disney (acho que na minha redação tinha esse passeio), porque acordei tarde e fiquei ainda guardando algum dinheiro para o final da viagem. Mas fui a Champs Elysee, às praças famosas, à Bastilha, espaço reconhecido como centro da revolução. Aqui a sensação é que são tantos lugares imortalizados em nossos livros de história.
Uma adendo: minha mente ensinada em espaços anticolonialistas fica a pensar sobre a preponderância da França no nosso imaginário. É incrível como uma cidade parece conter toda uma trajetória histórica que é utilizada para explicar o que nós somos hoje. Essa hegemonia realmente justifica Paris ser reconhecida enquanto uma cidade “Luz”, porque somos criados a crer que tudo surgiu aqui. Como acabei por seguir a rota da Pintura, fiquei pensando o quanto meus avos fazem pinturas semelhantes às dos impressionistas.
Se é apenas uma construção social, bem, eu não sei, mas somos treinados a pensar que tudo começou aqui e sabemos tão bem o nome dos reis, revolucionários, locais, eventos que estão marcados nas esquinas dessa cidade que eu vou ceder um pouco. Parece-me que todo mundo que se considera ocidental tem de vir a Paris. É a nossa Meca (New York precisa mudar minha opinião).
Agora que a viagem está no fim, percebi que as primeiras sensações que eu tinha, uma chateação com o dono do quarto onde me hospedara em Lisboa e o medo de estar só no final de uma viagem (quero voltar!), foram se evaporando pela experiência, de modo tal que acho que valeu muito a pena estar aqui. Conheci aspectos dessa cidade incríveis, como um metrô bastante eficiente e confortável (reparem nas fechaduras das portas do vagão), um frio que não venta, pessoas que seguem muito a etiqueta (uma domesticação do self incrível). Esqueci de diversos detalhe e, por tal razão, essa redação é muito pouco rica diante da experiência que vivenciei.
Apesar disso, a imaginação que eu tive aos oito anos não deve ser desmerecida diante da experiência. Isso porque o “a gente fomos” foi o que mais faltou aqui. Quando escrevia assim, pensava n‘a gente”, nas viagens para Maceió, Bonito, Garanhuns ou Martins. Na minha imaginação, viajar para Paris era dois carros cheios de crianças no banco de trás, com dois casais e com um orçamento um pouco apertado para todo mundo poder participar dos passeios, com direito a coca-cola grande para todo mundo beber. Talvez seja por querer que esse momento que eu tive fosse compartilhado que eu escrevo essa carta, porque essa viagem é incompleta pela falta de “a gente”. Imaginar que vocês estão aqui comigo, mesmo pelo whatsapp, foi muito importante.

Saudades. (Preparem o feijão preto –com farofa- tô voltando).


Alexandre

domingo, 3 de agosto de 2014

Humanismo no facebook

Observem estas duas figuras:
 (- Quem é você? Católico, judeu, muçulmano? - Um ser humano...)
Em certo sentido, a ideia de algo superior às "religiões", "gêneros", "raças", "identidade de gênero" pode ter, no final das contas, efeitos disciplinares tremendos, porque talvez a ideia de "humanidade" possa ser campo mais plural e de disputas de significados do que se imagina. Um exemplo disso são as controvérsias quanto ao uso do véu islâmico na sociedade francesa. A concepção de "humanidade" dos franceses fazem com que o uso do véu seja compreendido como uma afronta à humanidade. Foi nesse sentido que a corte europeia endossou a Lei francesa que proibiu o uso do véu nos espaços públicos:

"Os juízes da corte, com sede em Estrasburgo, decidiram por 15 a 2 votos que a proibição não viola a liberdade religiosa e tem por objetivo garantir "o respeito ao conjunto mínimo de valores de uma sociedade democrática aberta", o que inclui abertura à interação social." (retirado do sítio eletrônico http://portugues.notimerica.com/sociedade/noticia-corte-europeia-endossa-proibico-do-veu-integral-na-franca-20140701201833.html) 


O que, para mim, não significa qualquer afronta à humanidade daquelas mulheres, grande parcela da sociedade francesa vê como violência de gênero. Então eu, de início, já fico reticente em comprar qualquer ideia de "humanidade", porque "humanidade" pode significar uma justificativa para que muitas pessoas, em prol de direitos humanos, realizem atos de violência e de exclusão moral. Eu já falei, vou repetir. Eu já falei, vou repetir...

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Adriana Calcanhotto: modo de fazer


Duas considerações, antes de iniciar minha questão principal. A primeira era que eu deveria escrever um texto para a disciplina "Análise de Sistemas Interétnicos", que deverá ser entregue ate o dia 20 (terça-feira que vem). A segunda é que a foto acima mostra um violão sendo estragado para tirar uma foto. Que contraproducente (palavra que aprendi hoje).
Bem, a foto mostra uma dessas cantoras brasileiras famosas. Adriana Calcanhotto, gaúcha por definição, carioca por opção. Bacana, sacana, dourada, poeta, profeta. Poderia ficar enumerando uma série de afirmações sobre esta mulher, mas vou tentar caracterizá-la enquanto compositora de músicas. Em relação aos arranjos, eu talvez tenha pouco a dizer. Porém, como compositora, tenho a dizer que ela é: enumeradora, repetidora de palavras, dadaísta.
O que eu quero dizer? Bem, apenas é uma observação que eu fiz de várias das canções que ela escreveu. Adriana Calcanhotto utiliza-se muito do recurso da "enumeração", ou seja, de repetir estruturas simples e/ou mudar uma palavra. Vejamos o álbum "Senhas", de 1992. A primeira faixa, "Senhas", começa assim:
“Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto do bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto.”
Do primeiro verso, muda de "gosto" para "senso". Desse pro terceiro, "modos", apenas mantendo a concordância nominal. No quarto verso, oculta-se o sujeito e retira o objeto. Uma pobreza na qualidade dos versos, o que não é necessariamente um problema.  Continuando a música, Adriana Calcanhotto torna-se um pouco mais diversificada de palavras. Ela modifica os verbos, apesar de manter versos na primeira pessoa do singular.
“Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos”
O que se observa é uma concatenação de versos com uma repetição de orações simples na primeira pessoa. "Eu não gosto", "Eu aguento até rigores", "Eu respeito conveniências".
Ok, é apenas uma faixa. Mas, continuando o resto do álbum, Adriana Calcanhotto faz diversas canções do mesmo jeito. Observe, por exemplo, “Graffitis”, que não é a enumeração de frases de uma mesma estrutura, mas apenas de palavras, interrompida por algumas frases:
“Por meus passos velozes/ vapores/ suores/ sotaques/ antenas/ Antunes/ stones/ Por meus passos ligeiros/ graffitis/ mau cheiro/ Não fosse por você eu não notava essa cidade(...) Em meus passos, sapatos/ poeiras/ postes/ postos/ poetas/ profetas/ projetos/ notícias /negócios// Por meus passos rápidos,/ meus alvos/ meu norte/ Por minha lente meu olhar,/ meu foco/ meus olhos”
Além dessa, a música mais enumerativa de Adriana Calcanhotto se chama “tons”:
“Roxos/ Todos/ Pretos/ Partes/ Pratas/ Andrades/ Azuis/ Azares/ Amarras/ Amar/ Elos/ Amargores/ Calipsos/ Cortesias/ Cortes/ Cores e/ rancores// Luzes/ Milagres/ Lilases/ Rosas/ Guimarães/ Mulatos/ Dourados/ Rubores/ Castigos/ Castanhos/ Castores/ Havanas/ Avanços e/ Brancos/ Cobranças/ Cinzentos/ Cimentos/ Crianças/ nas sarjetas/ Nojentas/ Imagens/ Violeta/ Magentas/ Laranjas/ Matizes/ Cremes/ Crimes/ Cobaltos/ Assaltos/ Turquesas/ Pérolas/ aos hipócritas/ Ocres/ Terras/ Telhas/ Gelos/ Gemas”

Essas são três canções de um álbum. Mas, se vocês forem para outros que tenham composições originais da Adriana Calcanhotto, ela se repete. No CD “Cantada” (2003), a gaúcha também faz, de novo, enumerações, especificamente na faixa “Sou sua”:
Sou sua luz/ Sou sua cruz/ Sou sua flor/ Sou sua jura/ Sou sua cura/ Pro mal do amor/ Sou sua meia/ Sou sua sereia/ Cheia de sol/ Sou sua lua/ Sua carne crua/ Sobre o lençol/ Sou sua Amélia/ Sou sua Ofélia/ Sou sua foz/ Sou sua fonte/ Sou sua ponte/ pro além de nós/ Sou sua chita/ Sua criptonita/ Sou sua Lois/ Sou sua Jóia/ Sou sua Nóia/ Sua outra voz/ Sou sua/ Sou sua/ Sou sua/ Plenamente/ Simplesmente.
A canção que sucede a essa, chamada "sou seu", também é dessa maneira ("Sou seu colombo/ seu coração/ o seu canário/ sou o seu carvão").
Talvez seja uma visão impressionista e por isso não gostaria de ser tão enfático quanto a um modelo único de fazer música da Adriana. Há canções que fogem disso, como, por exemplo, “Água Perrier”, do álbum “Senhas”. Do mesmo modo, eu não fiz uma análise de todas as músicas que ela compôs e cantou. É apenas uma leve sensação de que ela se repete nos modos de escrever.
Em tempo, até mesmo quando ela cantou músicas de outros autores, ela gosta do uso dessas formas de música com palavras seguidas. O poema de Waly Salomão, chamado “Remix Século XX” é mais um exemplo disso.

No devir histórico

Meu blog está às moscas há um ano. Nem sei se as pessoas leem, e talvez a falta de retorno em comentários faz com que eu perca um pouco de vontade de escrever nele. Ao mesmo tempo, penso que retomar é trazer memórias e ideias que eu já nem concordo. Foi essa a sensação que eu tive quando eu li alguns textos aqui, que eu já os acho cheio de defeitos. Eu não queria fazer essa discussão meta-blogger, mas temo que seja necessária. Afinal, eu passei meses sem divulgar nada. Era muito importante retomar as ideias que as fazem presentes. E também aqui se exige uma remodelação da proposta deste blog, que eu já perdi nas memórias extensas do meu dia-a-dia. Neste sentido, creio que retomar esse blog se faz pela potencialidade de ter um leitor assíduo das ideias aqui presentes. Acho que, por ter um público-alvo mais visualizado, é possível eu conseguir me motivar a escrever. Guilherme, penso que você vai gastar um tempinho nas suas leituras do blog.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Vamos ceder enfim a tentação das nossas bocas cruas. Sinto que a vida vai agonizando uma paixão vadia, feito uma hemorragia. Mas agora ela coagulou.

domingo, 18 de agosto de 2013

meta

Uma ênfase tônica diferenciada no "e" de "meta" faz com que esse conjunto de letras tenha diferentes significados. Um é quase um mero prefixo, "meta", de metanarrativa, de metalinguagem, metáfora. Um /e/ fechado, por sua vez, traz o imperativo de "meter", enfiar. Escrevendo, lembro-me de que também pode ser de meta, objetivo.

Eu fico pensando o que foi a minha noite, qual foi "meta" preponderante.