quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Antropologia Jurídica

Universidade de Brasília
Faculdade de Direito
Disciplina: Atualização e Prática do Direito 1 (Antropologia do direito)
Professor: Alexandre J. de M. Fernandes (lexmedeiros@gmail.com)
Horário: 3ª/5ª 19h00 às 20h40

UM CONVITE PARA JURISTAS À ANTROPOLOGIA
A dogmática jurídica, que corresponde a mais de 60% das disciplinas que compõem o currículo de direito, está repleta de concepções tidas como universalizadas e supostamente alicerçadas em valores comunitários igualmente compartilhados. Apesar disso, qualquer estudante de direito tem consciência de que muitas dos conceitos jurídicos são passíveis de contestação, na medida em que expressam ideologias ou ontologias localizadas e contingentes a contextos sociais e históricos específicos.
Entretanto, a parte majoritária dos juristas tem utilizado como ferramenta de transformação das práticas jurídicas a atividade da interpretação jurídica, procurando demonstrar como o ordenamento deve se alicerçar e, vestigialmente, como os fatos jurídicos devem se articular ao ordenamento. Em certo sentido, essa atividade expressa uma “fetichização” das normas jurídicas, pois procura transformar as práticas jurídicas por meio de discussões centradas no “dever-ser”, além de traduzir os fatos sociais por meio de categorias legais. Não é que os juristas deixem de lado a observação dos padrões sociais e culturais, mas o conhecimento sobre essas regularidades é utilizado sem rigor metodológico.
A antropologia social é uma alternativa diferente da atividade de interpretação das normas e igualmente persuasiva para transformar as concepções jurídicas. Elenco duas razões para tanto: 1) ao trazer a etnografia dos fenômenos jurídicos, sendo capaz de registrar e explicitar os imponderáveis da vida cotidiana, o ofício da antropologia mostra como as normas jurídicas ganham vida nas práticas sociais, expondo a complexidade que é o “fenômeno jurídico”; 2) o conjunto de textos produzidos pela antropologia se constitui como asserções generalizáveis que ajudam a aprimorar a percepção sobre as nossas vidas. As teorias antropológicas, uma vez internalizadas, permitem fazer com que o estudante relacione os acontecimentos das diversas práticas jurídicas a concepções gerais da humanidade e, com isso, descaracterize o senso comum autorizado no meio jurídico.

DINÂMICAS DE AULA
O curso está estruturado em semanas, que correspondem a algumas questões antropológicas. A disciplina será cursada em um ambiente de discussão, em que os estudantes, depois de lerem o texto designado, trazem algumas falas para sala de aula. Cabe ao professor realizar comentários sobre essas falas e retomar partes dos textos que julgar importante. Como se trata de uma disciplina que busca ser um fórum de discussão, é desejável (para não dizer obrigatório) que o estudante venha com a leitura prévia do texto. Pela literatura não ser habitual aos estudantes de direito, não será exigido um domínio das ferramentas analíticas da antropologia e da sociologia. Assim, caberá ao professor explicar as diferentes categorias utilizadas pelos cientistas sociais, de modo a facilitar a compreensão sobre os textos, assim como trazer algumas discussões gerais da antropologia expressas na leitura complementar. A avaliação dependerá da quantidade de estudantes presentes na turma.

PROGRAMA (sujeito a modificações)

Prólogo
OLIVEIRA, Luciano. Não fale do código de Hamurabi! A pesquisa sócio-jurídica na pós-graduação em Direito.

Aulas 1 e 2: Antropologia, ciência do humano
GEERTZ, C. 1966. A transição para a humanidade. In S. Tax (org.) Panorama da Antropologia. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura.
Leitura Complementar
DA MATTA, Roberto. 1987. A Antropologia no Quadro das Ciências. In: Relativizando: Uma Introdução à Antropologia. Rio de Janeiro: Rocco, p. 11-38.
CLASTRES, Pierre. 2013. Do etnocídio. IN: Arqueologia da Violência – Ensaios em Antropologia Política. São Paulo: Cosac Naify.

ALGUMAS QUESTÕES ANTROPOLÓGICAS
Aulas 3 e 4 – Controle social
BERGER, Peter. 2001. A perspectiva Sociológica – o Homem na Sociedade. IN: Perspectivas Sociológicas – Uma visão humanística. Petrópolis: Vozes.
MAbLINOWSKI, Bronislaw. 2003. Crime e Costume na Sociedade Selvagem. Brasília: Editora da UnB. (partes selecionadas)
Leitura Complementar
SCHUCH, Patrice. 2011. “Antropologia do Direito”: trajetória e desafios contemporâneos.
RADCLIFFE-BROWN, A. R. 1973. O Direito Primitivo. IN: Estrutura e Função na Sociedade Primitiva, Petrópolis: Editora Vozes, pp. 260-69.

Aulas 5 e 6 – Cultura e comparação
GEERTZ, Clifford. O Saber Local: Fatos e leis em perspectiva comparada [Parte 1]. IN: O saber local. Vozes: Petropólis, 1998.
KANT DE LIMA, Roberto. 2009. Sensibilidades jurídicas, saber e poder: bases culturais de alguns aspectos do direito brasileiro em uma perspectiva comparada. Anuário Antropológico/2009 (2), pp. 25-51.
Leitura Complementar
BARTH, Fredrik. 1989. The analysis of culture in complex societies. Ethnos, vol. 54: III-IV, pp. 120-142.
WOLF, Eric. Cultura: panacéia ou problema. 2003 [1994]. In: RIBEIRO, Gustavo Lins e FELDMAN-BIANCO, Bela (Orgs.). Antropologia e Poder. São Paulo: Unicamp, pp. 291-303.
LARAIA, Roque. 2003 [1986]. Primeira parte: da natureza da cultura ou da natureza à cultura. In Cultura. Um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, pp. 9-63.

Aula 7 e 8 – Pluralismo Jurídico
SANTOS, Boaventura de Souza. 2014. O direito dos oprimidos. Lisboa: Almedina. (partes selecionadas)
MAMDANI, Mahmood. Ciudadano Y súbdito. África contemporánea y el legado del colonialismo tardío. Madri: Siglo XXI Editores, 1998. (partes selecionadas)
Leitura Complementar
CLASTRES, Pierre. A questão do poder na sociedade primitiva. IN: Arqueologia da Violência – Ensaios em Antropologia Política. São Paulo: Cosac Naify.
GEERTZ, Clifford. O Saber Local: Fatos e leis em perspectiva comparada [Parte 2 e 3]. IN:____. O saber local. Vozes: Petropólis, 1998.

Aula 9 e 10 – Conflitos e simbolismo
SIMMEL, George. A natureza sociológica do conflito. In Simmel. Organizado por Evaristo Moraes Filho (Coleção Grandes Cientistas Sociais). São Paulo: Ática, pp. 122-134.
PERRONE, Tatiana. 2014. Valores morais e monetários em conflito: uma etnografia em Varas de Família. Pensata 3 (2). UNIFESP.
Leitura Complementar
CARDOSO DE OLIVEIRA, L. R. 2011 A dimensão simbólica dos direitos e a análise de conflitos. Revista de Antropologia (USP. Impresso), v. 53, p. 451-473.

Aula 11 e 12 – Trocas e reciprocidade
MAUSS, Marcel. 2013. Ensaio sobre a dádiva. São Paulo: Cosac Naify.
BEVILÁQUA, Ciméa. 2001. Notas sobre a forma e a razão dos conflitos no mercado de consumo. Sociedade e Estado (Dádiva e solidariedades urbanas), volume XVI, nº 1-2, janeiro-dezembro de 2001, pp. 306-334.
Leitura Complementar
OLIVEIRA, Luís Roberto Cardoso. 2004. Honra, dignidade e reciprocidade. Série Antropologia 344. UnB.

Aulas 13 e 14 – Sentimentos
MAUSS, Marcel. 1974. A expressão obrigatória de sentimentos. IN: MAUSS. (org. Roberto Cardoso de Oliveira). São Paulo: Ática, p. 147-154.
MELLO, Kátia Sento Sé. O Sofrimento como Recurso de Acesso ao Direito: efeitos da política de recadastramento dos camelôs em Niterói/RJ. In: Cidade e Conflito. Guardas Municipais e Camelôs. Niterói, Editora da UFF, 2011, p. 161-189.
Leitura Complementar:
FERNANDES, Alexandre. 2011. Traduzindo demandas – uma etnografia das ações de alimentos na defensoria pública de São Sebastião. Monografia de Graduação em Direito. Brasíla, UnB.

SIMIÃO, Daniel e all. Sentidos de justiça e reconhecimento em formas extrajudiciais de resolução de conflitos em Belo Horizonte. In: LIMA, Roberto Kant; EILBAUM, Lucia; PIRES, Lenin. (Org.). Conflitos, direitos e moralidades em perspectiva comparada.. Rio de Janeiro: Garamond, 2010, v. 1, p. 221-250.

Aulas 15 e 16 – Rituais
PEIRANO, Mariza. 2003. Rituais ontem e hoje. Ciências sociais passo-a-passo 24. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores.
SILVA, Kelly Cristiane da. 2000. Que venha uma nova mulher. Notas sobre um ritual feminista de atendimento a mulheres vítimas de violência. Série Antropologia (Brasília. Online), v. 283, p. 81-100.
Leitura Complementar:
GcLUCKMAN, Max. 1954. Rituais de rebelião no sudoeste de África. Série textos de aula, Antropologia 4, Brasília: Editora da UnB, 34 p.
VAN GENNEP, Arnold. 2012. Os ritos de passagem. Petropólis: Vozes.

Aula 17 e 18 – Marcadores sociais da diferença
CORREA, Mariza. 1983. Morte em família: representações jurídicas de papéis sexuais. Graal.
Sessão de filme
LESTRADE, Jean. 2001. Assassinato Numa Manhã de Domingo. Documentário (115m).
Leitura Complementar:
DEBERT, Guita. Julho-dezembro de 2010. Desafios da politização da justiça e a antropologia do direito.  Revista de Antropologia.
SCHRITZMEYER, Ana Lúcia Pastore. 2004. Sortilégio de Saberes: curandeiros e juízes nos tribunais brasileiros (1900-1990). São Paulo, Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

Aula 19 e 20 – Reprodução e parentesco
FONSECA, Claudia L. W. 2005. DNA e paternidade: a certeza que pariu a dúvida. Revista de Estudos Feministas, Florianopolis, v. 12(2): 13-34.
LUNA, Naara. 2005. Natureza humana criada em laboratório: biologização e genetização do parentesco nas novas tecnologias reprodutivas. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, 12(2): 395-417. http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v12n2/08.pdf
Leitura Complementar
RADCLIFFE-BROWN, A.R. 1973 [1941]. O Estudo dos Sistemas de Parentesco. Estrutura e função na sociedade primitiva. Rio de Janeiro: Vozes. pp. 67-114.

Aula 21 e 22 - As Hegemonias Legais: o Valor da Harmonia
NADER, Laura. 1994. Harmonia Coerciva: A Economia Política dos Modelos Jurídicos. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, Número 26.
DEBERT, Guita Grin e BERALDO DE OLIVEIRA, Marcella. julho-dezembro de 2007. Os modelos conciliatórios de solução de conflitos e a “violência doméstica. In: Cadernos Pagu (29),305-337.
Leitura Complementar:
SCHUCH, Patrice. 2008. “Tecnologias da Não Violência e Modernização da Justiça no Brasil: o caso da Justiça Restaurativa”. Civitas (Porto Alegre), v. 8, p. 498-520.

Aula 23 e 24 – Noção de pessoa e cidadania
CARDOSO DE OLIVEIRA, Luis Roberto. 2011. Concepções de Igualdade e Cidadania. Contemporânea - Revista de Sociologia da UFSCar, v. 1, pp. 35-48
DAMATTA, Roberto. Sabe com quem está falando? Um ensaio sobre a distinção entre indivíduo e pessoa no Brasil. In: Carnavais. Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. pp.179-248.
Leitura Complementar
Mauss, Marcel. 2003 [1938]. Uma Categoria do Espírito Humano: a noção de pessoa, a de “eu”. IN: Sociologia e Antropologia. São Paulo: CosacNaify.
DUMONT, Louis. 1984. O Individualismo. São Paulo: Rocco.

Aulas 25 e 26 - Resumo dos trabalhos finais 

Aula 27 e 28 - Subjetivações
GOFFMAN, Erving. 1974. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar. (partes selecionadas)
CARDOSO DE OLIVEIRA, L. R. 2008. Existe Violência Sem Agressão Moral?. Revista Brasileira de Ciências Sociais (Impresso), v. 23, p. 135-146. Acessível em: http://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v23n67/10.pdf
Leitura Complementar
ELIAS, Norberto. 2013 Os Estabelecidos e os Outsiders. Zahar Editores.

Aula 29 e 30 – Sobre etnografia
VELHO, Gilberto. 1981. Observando o familiar. Em: Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Pp. 121- 132.
CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. 2000. O trabalho do antropólogo: olhar, ouvir, escrever. Em: O trabalho de antropólogo. São Paulo: UNESP. Pp. 17-35.
Leitura Complementar
GEERTZ, Clifford. 1989. Um jogo absorvente: Notas sobre a briga de galos balinesa. In  A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC.
EVANS-PRITCHARD, E. E. 2005 [1937]. Apêndice IV: algumas reminiscências e reflexões sobre o trabalho de campo. Em: Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Pp. 243-255.
CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. 2000. O trabalho do antropólogo: olhar, ouvir, escrever. Em: O trabalho de antropólogo. São Paulo: UNESP. Pp. 17-35.


Aula 31-33 – Discussão dos trabalhos Finais

sábado, 29 de novembro de 2014

Paris 1

Paris, 6 de dezembro de 2013

Quando eu tinha 8 anos e estava cursando a segunda série do ensino fundamental, minha professora sugeriu um redação como atividade de escola. Ela propusera que escolhêssemos um país e que imaginasse como seria a viagem. Meus amigos, em sua maioria, escolheram países do Oriente, como Japão e China. Uma parte queria ir aos Estados Unidos (especificamente a Disney). Eu não. Eu escolhi a França.
Fiz a minha redação. Lembro dela muito mais porque mainha mostrou para as pessoas na casa de Vovó Paé. Pelo o que eu me lembro, mainha achou-a bastante interessante. Lembro que ela afirmou que a nota que eu tinha tirado, um 8, se devia mais pelos erros de gramática e ortografia do que pelo conteúdo, que ela achava impecável. Eu lembro qual era o erro de ortografia: era porque eu escrevia “a gente fomos”: “A gente fomos pra o rio Sena, depois a gente subimos na torre Eiffel”.
Hoje eu tenho 24 anos, ou seja, o triplo da idade de quando escrevi essa redação. E hoje eu estou em Paris. Por um desvio da rota de pesquisa (hehehe), a redação se realizou de maneira extraordinária. Conheci diversos pontos da cidade que eu desconhecia a época da redação, como o Sacre-Ceur, o Moulin Rouge (imortalizado pelo musical), Montmartre (pela Amélie Poulain). Conheci os clichês da minha redação também, como os já citados e o museu do Louvre (especificamente pela Mona Lisa). E tive brilho nos olhos por conhecer tantos outros museus, como o D’Orsay e o das Armas. Infelizmente não fui a Disney (acho que na minha redação tinha esse passeio), porque acordei tarde e fiquei ainda guardando algum dinheiro para o final da viagem. Mas fui a Champs Elysee, às praças famosas, à Bastilha, espaço reconhecido como centro da revolução. Aqui a sensação é que são tantos lugares imortalizados em nossos livros de história.
Uma adendo: minha mente ensinada em espaços anticolonialistas fica a pensar sobre a preponderância da França no nosso imaginário. É incrível como uma cidade parece conter toda uma trajetória histórica que é utilizada para explicar o que nós somos hoje. Essa hegemonia realmente justifica Paris ser reconhecida enquanto uma cidade “Luz”, porque somos criados a crer que tudo surgiu aqui. Como acabei por seguir a rota da Pintura, fiquei pensando o quanto meus avos fazem pinturas semelhantes às dos impressionistas.
Se é apenas uma construção social, bem, eu não sei, mas somos treinados a pensar que tudo começou aqui e sabemos tão bem o nome dos reis, revolucionários, locais, eventos que estão marcados nas esquinas dessa cidade que eu vou ceder um pouco. Parece-me que todo mundo que se considera ocidental tem de vir a Paris. É a nossa Meca (New York precisa mudar minha opinião).
Agora que a viagem está no fim, percebi que as primeiras sensações que eu tinha, uma chateação com o dono do quarto onde me hospedara em Lisboa e o medo de estar só no final de uma viagem (quero voltar!), foram se evaporando pela experiência, de modo tal que acho que valeu muito a pena estar aqui. Conheci aspectos dessa cidade incríveis, como um metrô bastante eficiente e confortável (reparem nas fechaduras das portas do vagão), um frio que não venta, pessoas que seguem muito a etiqueta (uma domesticação do self incrível). Esqueci de diversos detalhe e, por tal razão, essa redação é muito pouco rica diante da experiência que vivenciei.
Apesar disso, a imaginação que eu tive aos oito anos não deve ser desmerecida diante da experiência. Isso porque o “a gente fomos” foi o que mais faltou aqui. Quando escrevia assim, pensava n‘a gente”, nas viagens para Maceió, Bonito, Garanhuns ou Martins. Na minha imaginação, viajar para Paris era dois carros cheios de crianças no banco de trás, com dois casais e com um orçamento um pouco apertado para todo mundo poder participar dos passeios, com direito a coca-cola grande para todo mundo beber. Talvez seja por querer que esse momento que eu tive fosse compartilhado que eu escrevo essa carta, porque essa viagem é incompleta pela falta de “a gente”. Imaginar que vocês estão aqui comigo, mesmo pelo whatsapp, foi muito importante.

Saudades. (Preparem o feijão preto –com farofa- tô voltando).


Alexandre

domingo, 3 de agosto de 2014

Humanismo no facebook

Observem estas duas figuras:
 (- Quem é você? Católico, judeu, muçulmano? - Um ser humano...)
Em certo sentido, a ideia de algo superior às "religiões", "gêneros", "raças", "identidade de gênero" pode ter, no final das contas, efeitos disciplinares tremendos, porque talvez a ideia de "humanidade" possa ser campo mais plural e de disputas de significados do que se imagina. Um exemplo disso são as controvérsias quanto ao uso do véu islâmico na sociedade francesa. A concepção de "humanidade" dos franceses fazem com que o uso do véu seja compreendido como uma afronta à humanidade. Foi nesse sentido que a corte europeia endossou a Lei francesa que proibiu o uso do véu nos espaços públicos:

"Os juízes da corte, com sede em Estrasburgo, decidiram por 15 a 2 votos que a proibição não viola a liberdade religiosa e tem por objetivo garantir "o respeito ao conjunto mínimo de valores de uma sociedade democrática aberta", o que inclui abertura à interação social." (retirado do sítio eletrônico http://portugues.notimerica.com/sociedade/noticia-corte-europeia-endossa-proibico-do-veu-integral-na-franca-20140701201833.html) 


O que, para mim, não significa qualquer afronta à humanidade daquelas mulheres, grande parcela da sociedade francesa vê como violência de gênero. Então eu, de início, já fico reticente em comprar qualquer ideia de "humanidade", porque "humanidade" pode significar uma justificativa para que muitas pessoas, em prol de direitos humanos, realizem atos de violência e de exclusão moral. Eu já falei, vou repetir. Eu já falei, vou repetir...

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Adriana Calcanhotto: modo de fazer


Duas considerações, antes de iniciar minha questão principal. A primeira era que eu deveria escrever um texto para a disciplina "Análise de Sistemas Interétnicos", que deverá ser entregue ate o dia 20 (terça-feira que vem). A segunda é que a foto acima mostra um violão sendo estragado para tirar uma foto. Que contraproducente (palavra que aprendi hoje).
Bem, a foto mostra uma dessas cantoras brasileiras famosas. Adriana Calcanhotto, gaúcha por definição, carioca por opção. Bacana, sacana, dourada, poeta, profeta. Poderia ficar enumerando uma série de afirmações sobre esta mulher, mas vou tentar caracterizá-la enquanto compositora de músicas. Em relação aos arranjos, eu talvez tenha pouco a dizer. Porém, como compositora, tenho a dizer que ela é: enumeradora, repetidora de palavras, dadaísta.
O que eu quero dizer? Bem, apenas é uma observação que eu fiz de várias das canções que ela escreveu. Adriana Calcanhotto utiliza-se muito do recurso da "enumeração", ou seja, de repetir estruturas simples e/ou mudar uma palavra. Vejamos o álbum "Senhas", de 1992. A primeira faixa, "Senhas", começa assim:
“Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto do bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto.”
Do primeiro verso, muda de "gosto" para "senso". Desse pro terceiro, "modos", apenas mantendo a concordância nominal. No quarto verso, oculta-se o sujeito e retira o objeto. Uma pobreza na qualidade dos versos, o que não é necessariamente um problema.  Continuando a música, Adriana Calcanhotto torna-se um pouco mais diversificada de palavras. Ela modifica os verbos, apesar de manter versos na primeira pessoa do singular.
“Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos”
O que se observa é uma concatenação de versos com uma repetição de orações simples na primeira pessoa. "Eu não gosto", "Eu aguento até rigores", "Eu respeito conveniências".
Ok, é apenas uma faixa. Mas, continuando o resto do álbum, Adriana Calcanhotto faz diversas canções do mesmo jeito. Observe, por exemplo, “Graffitis”, que não é a enumeração de frases de uma mesma estrutura, mas apenas de palavras, interrompida por algumas frases:
“Por meus passos velozes/ vapores/ suores/ sotaques/ antenas/ Antunes/ stones/ Por meus passos ligeiros/ graffitis/ mau cheiro/ Não fosse por você eu não notava essa cidade(...) Em meus passos, sapatos/ poeiras/ postes/ postos/ poetas/ profetas/ projetos/ notícias /negócios// Por meus passos rápidos,/ meus alvos/ meu norte/ Por minha lente meu olhar,/ meu foco/ meus olhos”
Além dessa, a música mais enumerativa de Adriana Calcanhotto se chama “tons”:
“Roxos/ Todos/ Pretos/ Partes/ Pratas/ Andrades/ Azuis/ Azares/ Amarras/ Amar/ Elos/ Amargores/ Calipsos/ Cortesias/ Cortes/ Cores e/ rancores// Luzes/ Milagres/ Lilases/ Rosas/ Guimarães/ Mulatos/ Dourados/ Rubores/ Castigos/ Castanhos/ Castores/ Havanas/ Avanços e/ Brancos/ Cobranças/ Cinzentos/ Cimentos/ Crianças/ nas sarjetas/ Nojentas/ Imagens/ Violeta/ Magentas/ Laranjas/ Matizes/ Cremes/ Crimes/ Cobaltos/ Assaltos/ Turquesas/ Pérolas/ aos hipócritas/ Ocres/ Terras/ Telhas/ Gelos/ Gemas”

Essas são três canções de um álbum. Mas, se vocês forem para outros que tenham composições originais da Adriana Calcanhotto, ela se repete. No CD “Cantada” (2003), a gaúcha também faz, de novo, enumerações, especificamente na faixa “Sou sua”:
Sou sua luz/ Sou sua cruz/ Sou sua flor/ Sou sua jura/ Sou sua cura/ Pro mal do amor/ Sou sua meia/ Sou sua sereia/ Cheia de sol/ Sou sua lua/ Sua carne crua/ Sobre o lençol/ Sou sua Amélia/ Sou sua Ofélia/ Sou sua foz/ Sou sua fonte/ Sou sua ponte/ pro além de nós/ Sou sua chita/ Sua criptonita/ Sou sua Lois/ Sou sua Jóia/ Sou sua Nóia/ Sua outra voz/ Sou sua/ Sou sua/ Sou sua/ Plenamente/ Simplesmente.
A canção que sucede a essa, chamada "sou seu", também é dessa maneira ("Sou seu colombo/ seu coração/ o seu canário/ sou o seu carvão").
Talvez seja uma visão impressionista e por isso não gostaria de ser tão enfático quanto a um modelo único de fazer música da Adriana. Há canções que fogem disso, como, por exemplo, “Água Perrier”, do álbum “Senhas”. Do mesmo modo, eu não fiz uma análise de todas as músicas que ela compôs e cantou. É apenas uma leve sensação de que ela se repete nos modos de escrever.
Em tempo, até mesmo quando ela cantou músicas de outros autores, ela gosta do uso dessas formas de música com palavras seguidas. O poema de Waly Salomão, chamado “Remix Século XX” é mais um exemplo disso.

No devir histórico

Meu blog está às moscas há um ano. Nem sei se as pessoas leem, e talvez a falta de retorno em comentários faz com que eu perca um pouco de vontade de escrever nele. Ao mesmo tempo, penso que retomar é trazer memórias e ideias que eu já nem concordo. Foi essa a sensação que eu tive quando eu li alguns textos aqui, que eu já os acho cheio de defeitos. Eu não queria fazer essa discussão meta-blogger, mas temo que seja necessária. Afinal, eu passei meses sem divulgar nada. Era muito importante retomar as ideias que as fazem presentes. E também aqui se exige uma remodelação da proposta deste blog, que eu já perdi nas memórias extensas do meu dia-a-dia. Neste sentido, creio que retomar esse blog se faz pela potencialidade de ter um leitor assíduo das ideias aqui presentes. Acho que, por ter um público-alvo mais visualizado, é possível eu conseguir me motivar a escrever. Guilherme, penso que você vai gastar um tempinho nas suas leituras do blog.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Vamos ceder enfim a tentação das nossas bocas cruas. Sinto que a vida vai agonizando uma paixão vadia, feito uma hemorragia. Mas agora ela coagulou.

domingo, 18 de agosto de 2013

meta

Uma ênfase tônica diferenciada no "e" de "meta" faz com que esse conjunto de letras tenha diferentes significados. Um é quase um mero prefixo, "meta", de metanarrativa, de metalinguagem, metáfora. Um /e/ fechado, por sua vez, traz o imperativo de "meter", enfiar. Escrevendo, lembro-me de que também pode ser de meta, objetivo.

Eu fico pensando o que foi a minha noite, qual foi "meta" preponderante.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Estou eu aqui com discussões novas sobre o Talal Asad. E eu fico pensando como as nossas escolhas teóricas são produtos de uma articulação com a nossa pauta de anseios políticos. Ele, ao deslegitimar noções de religião como um ópio da sociedade, mostrando que "religião" é um conceito hegemônico utilizado por "secularistas" que serve para expurgar diferentes visões de mundo, demonstra que o que se emerge é uma "não tolerância". Para quem é laico ou ateu, a religião significa apenas fetichizar, realizar rituais para ordenar o mundo e fazer suportar as desgraças da vida. E, como uma falsa consciência, ela é tolerada quanto domino da "crença", ou, como fala Emerson Giumbelli, do que se pode ser considerado "opinião". Porém, quando essa opinião mobiliza e tem efeitos no que é tido como "verdades" do mundo, tendo efeito no sistema econômico, jurídico e político, dando um sentido "religioso" ao curso natural do estado e se mostrando contrário ao que é tido como "laico", ela se torna um "problema". A religião "foge" do seu lugar. Ela "polui".

O que se apresenta é que a religião é uma categoria historicamente produzida e que explicar determinados contextos a partir dela significa uma má interpretação do ponto de vista dos nativos. O islamismo, para Talal Asad, não é compreendido pelos muçulmanos egípcios como a gente compreende o que é religião. Talvez o islão seja para os muçulmanos o que a verdade é para a modernidade. É, a partir dessa comparação, que se é possível fazer uma antropologia simétrica. 

Isso, para além de uma interpretação do outro mais fidedigna, de colocar conceitos em posições de igualdade, permite também que a gente não veja o outro como falsa consciência. Não concordo com evangélicos quando estes dizem que "Deus diz que homem não pode casar com homem", mas eu não diria que ele crê e eu sei a verdade. Se a igualdade é um valor na antropologia, e se a gente quer de fato tratar as diferentes conformações sociais e culturais como uma diversidade, então é necessário, tanto epistemologicamente quanto politicamente, colocar em pé de igualdade diferentes formas de pensar o mundo.

domingo, 7 de julho de 2013

Por que eu não gosto de poesias?

Poesias. Eu gosto do ritmo, eu gosto da batida, das rimas. Mas eu não vejo pessoas falando na segunda pessoa. Alguns escritores assumem este tempo verbal apenas quando estão num momento escrito. Além disso,  fazem analogias com universos tão distantes, quando o mais provável seria que utilizassem de analogias e metáforas banais, do dia-a-dia. "Ó, por que amastes aos que lhe faz desvanecer?", quando eu uso de palavras como "Poxa... você só gosta de quem te faz mal?". A mensagem fica mais direta, imagino, supondo que palavras que usamos com mais frequência sejam mais facilmente perceptível do que termos de difícil alcance. 
Por outras razões, entretanto, que me fazem pensar que poesia não me absorve. São, em geral, bastante conceituais, com pouca narrativas e sempre voltada para ideias amorosas. Por isso prefiro ler prosa.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Meu dia 6 de maio de 2013

Enquanto estava sonhando com os amores passados, meu irmão me acordou. "Alexandre, cadê a chave do carro?". O aborrecimento, para além do sono interrompido, foi por causa do ouvido que voltou a acumular secreção. Sim, eu tenho um tímpano perfurado que, com qualquer corpo estranho, inflama. E aí as dores começam a surgir, porque dormir faz esquecer tantas dores (exceto as memórias que continuam frescas). Levantei às 10h00 e entrei na internet... tomei banho, lavei os cabelos, tentei ler alguma coisa. Talal Asad tem sido uma inspiração antropológica, as ideias de transformar a antropologia menos secular tá me deixando cheio de tesão para modificar a antropologia nacional que não procura observar a religiao a partir de uma noção mais básica: a de que é uma categoria nativa. Mas isso pouco importa. Uma ansiedade ocasionada pela falta de sistematicidade sobre a leitura e sem muita vontade de estudar. Por que? Serão as dores de ouvido, será uma falta de orientação melhor sobre o que estudar, sobre o que ler, sobre quais serão seus objetos de estudo? 
Mês de abril foi muito caro pra mim e até agora a bolsa de mestrado não caiu. Estou preocupado porque esse mês, de fato, eu não economizei: paguei parte da minha viagem pra Santiago, paguei nutricionista, comprei antibióticos pra esse ouvido tosco.... tudo perdido! E fui pra UnB ver se o mundo passa, se tudo melhora, se eu recebo uma notícia mais feliz. O humor já não tava muito bom e, o que eu esperava ser um SS, veio um MS. De boa... hehehe (de boa o caralho!).
Conversei com Chiquinho, conversei com Paloma, conversei com Deinha, conversei com Raysa, conversei, conversei. A antropologia hoje foi deixada de lado, asism como tinha deixado nos dias anteriores. Giddens ficou com uma leitura muito fajuta, porque cansou a filosofia que se diz sociológica, mas incapaz de fazer da empiria um argumento importante. Cansado de masturbações intelectuais, pensei em me inscrever num projeto de formação no Timor Leste de professores de português. Mas eu não acho que isso seja possível, acredito que ainda me falta tanto feijão com arroz...
Voltei para casa com meus pais às 18h00. E conversando sobre a possibilidade de ir ao Timor Leste, minha mãe, no carro, disse que me achava mais teórico do que etnógrafo, pelas coisas que eu escrevia
. Não era muito o que eu queria escutar e talvez muito do que hoje escrevo seja em busca de afirmar pros quatro cantos do mundo: "então, eu consigo escrever percepções do meu dia!". Mas, neste momento, eu tô muito seletivo sobre o que aconteceu no meu dia, eu não gostaria de expor todas os pormenores chatinhos como minha visita a sitios pornográficos ou a acusação feita pelo Chico de que toda a minha raiva se deve ao MS que eu tirei. Etnografia sem teoria é tãããão chata...
Chegando em casa, tive muitos motivos de riso. Minha irmã contou que gemia de noite pra minha irmã ficar assustada. Quando essa acendia a luz, ela perguntava "Paula, você quem tava fazendo esse barulho?". Ela fazia a louca e dizia: "oi? nao escutei... tava dormindo". Maria Luisa desligava a luz de novo e voltava "grrrrr...". ahahahahahaha Ri muito.
Depois entrei na internet e conversei com Hugo Batista, amiguinho do Chico do Rio de Janeiro. Um doce de menino, fofo. Também conversei com a Paloma, falando pra ela sobre as coisas do dia a dia e as taxas de hormônio que aumenta a libido (libido, para mim, deveria ser masculino... onde já se viu palavra feminina com "o" no final?). Fiquei com vontade de me candidatar a uma vaga de doutorado na USP, meio que querendo mudar de instituição pro doutorado, mas talvez mais querendo mudar de ares, de cidade... Ganhar dinheiro e ser independente por um tempo seria uma boa.


É isso meus lindos. Talvez tudo que me disseram hoje seja verdade. Talvez eu seja um bom teórico e um mau etnógrafo, talvez meu dia seja ruim por causa do MS em instituições. Há uma vontade de contrariar todas essas coisas. Os meios para isso? Ficar de boa com meu dia, tomar antibióticos pra a inflamação, fazer um bolo pra a Paloma e terminar tudo o que me propus a fazer (conversar com a possivel orientadora na USP e me inscrever no projeto pro Timor Leste). Para a acusação da minha mãe, eu teria de continuar esse blog com os detalhes mais pormenores do meu dia-a-dia, contando as picuinhas mais inúteis, mas ao mesmo tempo tornando-o super maçante.

Beijos!

(para Paloma).


segunda-feira, 22 de abril de 2013

domingo, 21 de abril de 2013

Brasília - 53 anos

Nos últimos momentos do dia 21 de abril, cá estou eu comentando sobre a cidade que eu moro há 9 anos. O que me faz pensar é que Brasília marca minha trajetória, porque é a cidade que mais tempo eu morei. Interessante perceber, no entanto, que esse post só demonstra a eficiência que o estado nação possui em movimentar minha trajetória. Começando pelo idioma que aqui escrevo, além das idéias de aniversário de uma cidade em comemoração à Inconfidência Mineira, eu apenas estou aqui pelo modelo de organização social que me fez movimentar para o centro geométrico de um território. Primeiro por um país que centraliza seu funcionalismo público nesta localidade, que fez com que minha mãe viesse ao planalto central em busca de uma melhor renda. Depois por me fazer estudar por onde estudei, na crença de que a universidade de brasília era o melhor espaço para aprender. Brasília que também me fez estudar direito, mas que também me relegou a antropologia. Brasília que foi experimentada pelas formas específicas de interação, do anonimato dos seus setores organizados.
Eu gosto dela [as]sim.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Memórias estão frescas

Estou aqui sentado nu no chão, apoiando meu computador na cama e escutando a música da trilha sonora do O Piano. Esse estado de espírito poderia ser fofinho, de alguém que está bem na sua privacidade e com a vida. Mas as memórias voltaram de maneira tão intensa que eu fico aqui pensando se o que aqui se expressa é muito mais uma miséria humana.
Eu não estou querendo mais relacionar o meu presente com essas memórias, mas tudo parece que são as relações que eu quero rejeitar que fazem com que eu tente relembrar desse meu passado. É a vinda de alguém para o Distrito Federal ou seria mais alguma notícia de que o mundo quer me colocar em um relacionamento sério? Eu que estava super tranquilo e sem ânsia de ter de tomar conta dos sentimentos dos outros porque parece que eu sou um trator de destruição nas vidas das pessoas, alguém que ocasiona uma série de tristezas e desalegrias... 
Eu queria tanto mais ficar com vontade de escrever sobre os missionários, sobre a produção da alteridade, sobre como eles pensam a mudança social... não estava em busca de moradias, de cuidados financeiros,de tanta beleza que há na vida que me faça sentir pressionado.
Ermitão é o medo que eu tenho de ser ou de me transformar, mas acho que preciso ficar em paz comigo mesmo.

Um beijo.

domingo, 25 de novembro de 2012

"Eu também".

No filme “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, três jovens se trancam num apartamento durante as revoluções da França no maio de 1968. O personagem americano, dentro da banheira em conjunto com um casal de irmãos, sente aquele momento como inigualável, único. Compreendendo que aquilo também era sentido por os jovens que ali vivenciavam aquele momento, fez uma pequena declaração: “eu amo vocês”.
Os outros dois ficaram um tanto impassíveis. Não demonstraram uma reação muito emotiva, apenas falaram “Obrigado. Eu também”. Enquanto isso, o americano fica tristonho. Se eu fosse o americano, eu tiraria duas conclusões:

1. Eles estão vivendo aquele momento não como algo tão importante e saliente, mas apenas como uma vivência, trata-se de uma relação passageira. São apenas joguinhos sobre filmes, apostas sexuais e nudez banalizada; ou
2. Também experimentam aqueles dias como realmente únicos, ótimos, pessoalizados. Porém o sentimento não precisa/deve ser expresso - o amor está por baixo de outras declarações.

Eu gostaria muito de acreditar que se tratava da segunda opção, mas o personagem francês, Louis Garrell, sai às ruas e participa das manifestações. Neste momento, ele deixa para trás a casa, a irmã e todas aquelas pequenas mentiras. E é esta a constatação melancólica do personagem americano: ele não é amado como ama. A expressão dos sentimentos, em suas mais diversas maneiras, é tão importante. A falta de expressão não aproxima, só distancia.

Hoje eu me senti assim.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O ânimo que passa através de você

Recentemente baixei a trilha sonora de "O Piano" (The Piano, Nova Zelândia, 1993), filme dirigido por Jane Campion. . Uma das faixas deste album me toca em espacial. Chama-se "The mood that passes through you", de autoria do Michael Nyman.

A melodia começa com tons mais graves e depois vai ficando com o som mais agudo. Porém, em algum momento, eu começo a achar que a música desanda, perde seu ritmo e poderia ficar nas teclas mais à direita. Se eu tenho críticas à música, por que continuo escutando? Isto me fez pensar que eu gosto mais da música pelo o que ela representa dentro do filme do que necessariamente pela melodia dela. E então eu lembrei da cena, que agora conto pra vocês.
No entanto,  é preciso fazer antes uma pequena sinopse do filme para situar esta cena:
SPOILERS OPEN
Ada (Holly Hunter) é uma mãe solteira muda que vivia na Escócia do século XIX. Seu pai realiza um casamento arranjado com um colono britânico na Nova Zelândia, de modo que ela e sua pequena filha (Anna Paquin) se mudam para as terras exóticas daquela ilha no Pacífico. 
Enquanto esperam pela chegada do seu novo marido Alisdair (Sam Neil) na praia deserta em que desembarcam, Ada toca músicas no piano. O filme utiliza-se de uma voz off (artifício desnecessário, diga-se de passagem) para mostrar a paixão que esta tem por seu piano, em que ela indica que sentirá falta de tocá-lo durante a longa viagem que fará até a Nova Zelândia. Durante a espera, mostra-se o seu rosto enquanto toca o instrumento, em que os olhos se fecham e o sorriso se abre sem muito intuito. 
A chegada no novo marido para buscá-la na praia, no entanto, começa mal. Este, incapaz de perceber a importância do instrumento, não se dispõe a levá-lo para a fazenda por ser muito pesada. Ada esperneia, faz linguagem de sinais para a filha tentar impedi-lo de deixar o piano no mar, fica emburrada. Todas essas ações, em vão, revelam que Ada vê naquele instrumento muito mais do que um lazer, mas também um instrumento de comunicação. E todo o filme é neste sentido: um desentendimento levando às consequências de um relacionamento que jamais irá decolar, porque o piano é onde Ada se impõe, por onde ela pode se comunicar.
Neste meio tempo, entra um capataz Baines (Harvey Keitel), que tem uma sensibilidade maior em perceber como aquele instrumento é, para Ada, tão importante. Ao vê-la pedindo para ser levada com a filha para praia, o capataz pede para Alisdair o piano para sua casa. Ada reluta, mas depois descobre que poderá tocar o piano na casa do capataz. 
Durante esses encontros na casa de Baines, este intensifica seus desejos por Ada, que também fica desejosa por alguém que lhe deu acesso ao piano. Mas Baines, por mais sensível, vê também que conseguirá algumas coisas em troca do piano. Assim ele começa a barganhar o instrumento em troca de pequenos favores, como tocar em suas pernas, abraçá-la, beijá-la. Ada, agora casada, reluta  em ceder a Baines, mas ao mesmo tempo começa a sentir prazer em ser desejada, ficando um pouco grata por ele dar acesso ao seu piano,. 
Nesses pequenos encontros, acontece a cena que eu acho sensacional. Por volta de 40 minutos de projeção, Baines pede para Ada tocar o piano. Ada se vira e "The mood that passes through" entoa belamente, no momento em que Baines começa a tocar em suas costas. A melodia vai ficando aguda e o movimento da cena mostra que Ada também estava gostando do toque. Baines vê na recepção um momento de aumentar a intensidade do toque, mas Ada, ainda receosa com os desejos que estava sentindo, começa a tocar uma outra melodia, quase uma marchinha. Interrompe-se o contato.
Se vocês viram pela descrição, a cena não tem mais de 2 minutos. Porém eu acho a Jane Campion genial neste sentido. Trata-se de um prazer interrompido, de alguém que muda da melodia sedutora para a barulhenta em busca de interromper um desejo com culpa. Como espectador, fiquei com uma vontade tremenda que aquele ato se consumasse, que a Ada cedesse e que o Baines se saciasse, mas não: voltamos ao mundo normal, onde os desejos são contidos e senti-los é um momento de culpa.
Por conseguir utilizar a trilha sonora como parte da comunicação de Ada e por expressar um desejo interrompido pela culpa, eu gosto muito de "The mood that passes through". A cena, para mim, é belíssima, apesar de não consegui achá-la no youtube.
No mais, fica a indicação do filme. Hoje, depois de tanto assisti-lo, acredito que ele perdeu um pouco do brilho. Mas, mesmo assim, vale muito a pena. 






quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Educação ruim


Em 2004, escrevia um jornal feito no Complexo Educacional Contemporâneo, em Natal. O jornal se chamava “Dê Niu Iorqui Taimes” e tratava basicamente de fofocas internas da turma, com piadinhas sobre colegas de sala. Era bastante divertido, apesar de ter algumas piadas homofóbicas que hoje eu não faria e, em muitos sentidos, era potencialmente uma fonte para bullying.
Quando vim para Brasília, ele foi extinto. Mas as pessoas quiseram assumir a ideia, surgindo novos escritores e novos jornal. Acho que foi Guma, Pedro Barros, Marília e outras pessoas que continuaram a escrita dele. Não lembro bem
Dois meses depois, jornais foram proibidos pela direção da escola. A coordenação, em conjunto com a diretoria, afirmou que o jornal não tinha nada de educativo, de modo que seria um desperdício de tempo a apresentação dele na frente da sala. Oito anos se passaram e eu já via tal explicação como bastante tosca. O que eu penso hoje só confirma o quão imbecil é um educador afirmar que um jornal publicado por alunos não é um processo educativo. Antes fosse afirmando que o jornal era um foco de bullying (o que eu acredito que não fosse), mas não. O que apenas foi dito era que aquilo era um desperdício de tempo e uma deseducação. Eu não sei se preciso explicar isto, mas aquele jornal era capaz de desenvolver muitas habilidades nos estudantes. A escrita, a leitura, oratória, conhecimento de gêneros textuais, desenvolvimento crítico, observação dos fatos sociais, etc.. Mas o autoritarismo de uma escola é incapaz de permitir iniciativas que não sejam constituídas pela equipe pedagógica.
Quando o jornal foi censurado, fiz críticas no antigo fotolog da turma. Pelas críticas, a diretoria ligou para minha mãe e conversou sobre esse texto, porque aquilo era propaganda negativa. Com isto, deletei o texto, meio que com medo do que poderia acontecer, como um processo judicial por injúria. Hoje, como sou advogado, sei muito bem que o que eu disse não era, nem de longe, algo errado. Uma iniciativa como a menina do “Diário de Classe”, pelo contrário, tem sido vista como bastante positiva. Queria ter continuado a escrever minhas críticas àquela escola, só que escutei dos meus queridos pais que “merda a gente faz no sanitário”. =(
Hoje eu entrei no sítio eletrônico da minha escola em Natal (http://www.contemporaneo.com.br). Não sei como está a administração da escola dentro de sala de aula, quais são as tensões existentes entre alunos e corpo docente, mas o sítio eletrônico já demonstra como são lamentáveis as concepções de educação que se há naquela escola. O ensino médio não é apresentado como simplesmente “ensino médio”, mas como “ensino médio/pré-vestibular”.
Por que pensar o ensino médio como pré-vestibular? Este nível da educação deveria ser auto-suficiente, por mais que seja desejoso aos estudantes continuar seus processos de formação na educação superior. É um desserviço acreditar que aquilo é uma etapa que se coroa pela conquista de uma vaga na Universidade. Essa ideia é tão naturalizada que o terceiro ano do ensino médio não é chamado de “3º”, mas de “pré”. E, como eu lembro, o "pré" não precisaria se dedicar à educação física e não participa das atividades extra-curriculares da escola. Muito pelo contrário: os “pré-vestibulandos” devem se centrar nos estudos para o vestibular, fazendo uma revisão completa de todas as disciplinas do ensino médio.
Terminado o que eu tenho a comentar, uma pergunta que não quer calar: será que vão ligar aqui pra casa depois de reclamar sobre minhas críticas?

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Educação jurídica e autoritarismo


Não sei se essa história é verdadeira, mas, mesmo que seja falsa, ela é minimamente plausível. Dizem que aconteceu numa universidade particular, mas poderia acontecer na Universidade de Brasília que não me causaria espanto. Eu vou floreá-la para deixar mais bonita e, portanto, isto aqui não passa de uma alegoria.
Certa vez, uma professora de direito processual penal iniciou o semestre fazendo uma pequena revisão sobre direito penal, apresentando alguns conceitos que as pessoas aprendem na “teoria do crime”. Em certo momento, a professora apresentou o conceito de “crime impossível”. Para quem não sabe o que significa este conceito, pode-se dizer que é quando alguém acha que esta cometendo um delito, mas sua ação não é tipificada em lei. Um exemplo bem clássico é quando uma pessoa atira num defunto achando que ele ainda estar vivo. A intenção, de fato, era cometer um homicídio, mas as circunstâncias de que a potencial vítima estava morta impede de subsumir a uma ação de “matar alguém”.
Pois bem. A professora, com o intuito de “provocar” a turma, fez um exemplo um tanto ortodoxo. Ela afirmou que era um crime impossível o estupro de “mulher feia”. Começou a soltar um monte de gafes estilo Rafinha Bastos (não, ele ainda não tinha soltado esta pérola horrorosa no seu programa), dizendo que aquilo era um favor e que, por isso, não poderia ser punido penalmente.
A sala de aula, escutando tal tipo de comentário, se remexeu. Alguns acharam super engraçado, afinal, era isso mesmo! “Mulher feia não sofre estupro, ganha favor”. Em um ponto da sala, alguns com o espírito um pouco mais feminista, que vêem nesta atitude uma hierarquização frontal às relações de gênero, começaram a ficar desconfortáveis.
Entretanto, esses sentimentos ficaram guardados. O silêncio, às vezes cortado por risadinhas dos idiotas, se manteve. A professora não quis deixar passar e continuou com argumentos circulares. O desconforto batendo nas cabecinhas de estudantes, principalmente das mulheres, mas todo mundo continuou calado.
A professora ficou abismada com a passividade apresentada. Foi então que ela se explicou, disse que não concordava com nada do que tinha dito, que se tratava apenas de uma atuação tosca. Afirmou que queria ver o grau de espírito crítico da turma, e em que sentido eles são contestadores. Quando a máscara da professora caiu, todos os alunos começaram a modificar seus comportamentos: quem ria, parou. Quem estava sério, começou a endossar os comentários da professora.
Se eu fosse essa professora, eu ficaria triste em perceber que os estudantes se comportam de acordo com o que o professor demonstra seu pensamento. Parece que a sala de aula é um espaço em que o que o professor diz é verdade, que não há razões de discordar. 
Uma das minhas razões de sair de uma faculdade de direito é esta. Professores são poderosos demais. O espaço escolar está longe de ser um local em que as regras de democracia e comportamento adequado são sancionados.
Eu fico abismado com a quantidade de ações abusivas que um professor poderá cometer. Me espanta, entretanto, a passividade de alunos diante dessas ações.

domingo, 1 de abril de 2012

Imagens Inéditas!

Imagens escondidas de uma banca de revista no centro de Goiânia-GO, em que mostra a equipe do governador Marconi Perillo, senador Demostenes Torres e sua trupe corrupta tentando esconder o escândalo ao pegar todos os exemplares da revista Carta Capital.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Sobre o ato de abraçar


Vovó Paé me disse que as histórias tristes a gente deve escrever na areia. Eu entendo esta mensagem, mas peço licença para escrever uma história triste, porque algumas palavras sobre o ato de abraçar decorrem desta história.

Era 2003, mainha tinha ido para a casa de vovó. Quando voltou, eu perguntei como tinha sido lá. “Sua vó foi direto de Cajueiro para o hospital. Ela disse que chegou lá 'toda cafajeste' e que o médico nem tinha dado atenção para ela. Mas ela falou que conseguiu ver vovó Guilhermina”.

Depois daquele dia, eu comecei a chamar pessoas mal-vestidas de “toda cafajeste”. Rio sempre porque lembro de vovó Paé falando “toda cafajeste”. Mas também naquele dia a mãe de vovó Paé não votaria mais para a casa. Vovó Guilhermina, minha bisavó, tinha sido internada porque tinha passado mal. Eu não lembro muito bem o que aconteceu, também nem procurei saber muito porque aquilo, para mim, era apenas a idade. Eu entendia que a fragilidade da saúde de vovó Guilhermina era porque ela já se encontrava velhinha, com seus 88 anos.

Foi mais ou menos um mês de idas e vindas ao Hospital do Coração, de visitas a UTI e de um coma que já não acabava mais. Vovó Paé contou para mim que tentou conversar com a mãe dela antes do coma, perguntando se ela sabia quem era. Vovó Guilhermina, que já não estava muito consciente, disse: “não é Dunga? É Alexandre”.

Numa sexta-feira à noite, enquanto eu ficava aperreando mainha para a gente assistir “Carandiru” no cinema, pois só poderia assistir ao filme acompanhado de um maior de idade, o telefone tocou. E, como era tio Hércules e muito raramente tio Hércules ligava lá para casa, eu já imaginava qual era a notícia.

Mainha ficou chorosa, com o rosto mais vermelho do que o usual. Começou a ligar para outras pessoas e a informar que vovó Guilhermina tinha morrido. O meu cinema de sexta-feira furou, além de que o sábado seria dia de enterro. O domingo, que já seria um dia das mães sisudo com a situação da bisavó, só se tornaria um pouco mais lamentável.

No cemitério, já se encontrava diversos familiares ao redor do caixão, dentro da capela. Eu não consegui entrar e fiquei escutando a missa do lado de fora, observando a situação distante juntamente com minhas duas irmãs mais velhas. Lembro que o clima estava muito agradável, lembro como eu achei ótimo as meninas da ginástica terem ido ao enterro e dá um apoio para vovó Paé. Lembro também o quão eu fiquei incomodado com pessoas usando óculos escuros dentro de uma capela, como se fosse vergonhoso mostrar lágrimas em um enterro.

Até o fim da missa, eu não chorei. Só que a minha avó Paé, que até então não tinha falado nada, se pronunciou. Não lembro muito bem quais foram as palavras delas, mas a mensagem foi mais ou menos assim: “Quando eu era criança, mamãe tinha a pele muito vermelha e desgastada. Ela achava que aquilo era contagioso e pedia para a gente não ficar abraçando ela. Só que aquilo não era contagioso. Hoje eu percebi que não vou poder mais abraçá-la. Queria dizer para vocês, filhos e netos, que sempre que puder abraçar seu pais, sua mães ou seus avós, abrace-os”.

Aquelas poucas palavras fizeram com que eu e as minhas irmãs se aproximassem para dentro da capela. E, se até então eu estava mais atento em pequenas bobagens, eu percebi que vovó Guilhermina iria fazer falta para muita gente. Foram as palavras de vovó Paé, juntando-se ao corpo daquela velhinha dentro de um caixão, que fizeram com que eu começasse a chorar.

O choro, no entanto, sVovó Paé me disse que as histórias tristes a gente deve escrever na areia. Eu entendo esta mensagem, mas peço licença para escrever uma história triste, porque algumas palavras sobre o ato de abraçar decorrem desta história.

Era 2003, mainha tinha ido para a casa de vovó. Quando voltou, eu perguntei como tinha sido lá. “Sua vó foi direto de Cajueiro para o hospital. Ela disse que chegou lá 'toda cafajeste' e que o médico nem tinha dado atenção para ela. Mas ela falou que conseguiu ver vovó Guilhermina”.

Depois daquele dia, eu comecei a chamar pessoas mal-vestidas de “toda cafajeste”. Rio sempre porque lembro de vovó Paé falando “toda cafajeste”. Mas também naquele dia a mãe de vovó Paé não votaria mais para a casa. Vovó Guilhermina, minha bisavó, tinha sido internada porque tinha passado mal. Eu não lembro muito bem o que aconteceu, também nem procurei saber muito porque aquilo, para mim, era apenas a idade. Eu entendia que a fragilidade da saúde de vovó Guilhermina era porque ela já se encontrava velhinha, com seus 88 anos.

Foi mais ou menos um mês de idas e vindas ao Hospital do Coração, de visitas a UTI e de um coma que já não acabava mais. Vovó Paé contou para mim que tentou conversar com a mãe dela antes do coma, perguntando se ela sabia quem era. Vovó Guilhermina, que já não estava muito consciente, disse: “não é Dunga? É Alexandre”.

Numa sexta-feira à noite, enquanto eu ficava aperreando mainha para a gente assistir “Carandiru” no cinema, pois só poderia assistir ao filme acompanhado de um maior de idade, o telefone tocou. E, como era tio Hércules e muito raramente tio Hércules ligava lá para casa, eu já imaginava qual era a notícia.

Mainha ficou chorosa, com o rosto mais vermelho do que o usual. Começou a ligar para outras pessoas e a informar que vovó Guilhermina tinha morrido. O meu cinema de sexta-feira furou, além de que o sábado seria dia de enterro. O domingo, que já seria um dia das mães sisudo com a situação da bisavó, só se tornaria um pouco mais lamentável.

No cemitério, já se encontrava diversos familiares ao redor do caixão, dentro da capela. Eu não consegui entrar e fiquei escutando a missa do lado de fora, observando a situação distante juntamente com minhas duas irmãs mais velhas. Lembro que o clima estava muito agradável, lembro como eu achei ótimo as meninas da ginástica terem ido ao enterro e dá um apoio para vovó Paé. Lembro também o quão eu fiquei incomodado com pessoas usando óculos escuros dentro de uma capela, como se fosse vergonhoso mostrar lágrimas em um enterro.

Até o fim da missa, eu não chorei. Só que a minha avó Paé, que até então não tinha falado nada, se pronunciou. Não lembro muito bem quais foram as palavras delas, mas a mensagem foi mais ou menos assim: “Quando eu era criança, mamãe tinha a pele muito vermelha e desgastada. Ela achava que aquilo era contagioso e pedia para a gente não ficar abraçando ela. Só que aquilo não era contagioso. Hoje eu percebi que não vou poder mais abraçá-la. Queria dizer para vocês, filhos e netos, que sempre que puder abraçar seu pais, sua mães ou seus avós, abrace-os”.

Aquelas poucas palavras fizeram com que eu e as minhas irmãs se aproximassem para dentro da capela. E, se até então eu estava mais atento em pequenas bobagens, eu percebi que vovó Guilhermina iria fazer falta para muita gente. Foram as palavras de vovó Paé, juntando-se ao corpo daquela velhinha dentro de um caixão, que fizeram com que eu começasse a chorar.

O choro, no entanto, se intensificou, porque eu fui me sentar ao lado da minha mãe, que soluçava na primeira cadeira em frente ao caixão. Ela, que estava muito abalada, encostou a cabeça no meu ombro. Eu poderia ter pego as palavras de vovó Paé e ter abraçado minha mãe, mas eu me senti tão frágil que não consegui fazer isso.

A lição que acabara de ser ensinada, que era de fazer demonstrações de afeto enquanto a gente pode demonstrar, já não era cumprida. Posso não ter abraçado a minha mãe naquela hora, mas a menVovó Paé me disse que as histórias tristes a gente deve escrever na areia. Eu entendo esta mensagem, mas peço licença para escrever uma história triste, porque algumas palavras sobre o ato de abraçar decorrem desta história.

Era 2003, mainha tinha ido para a casa de vovó. Quando voltou, eu perguntei como tinha sido lá. “Sua vó foi direto de Cajueiro para o hospital. Ela disse que chegou lá 'toda cafajeste' e que o médico nem tinha dado atenção para ela. Mas ela falou que conseguiu ver vovó Guilhermina”.

Depois daquele dia, eu comecei a chamar pessoas mal-vestidas de “toda cafajeste”. Rio sempre porque lembro de vovó Paé falando “toda cafajeste”. Mas também naquele dia a mãe de vovó Paé não votaria mais para a casa. Vovó Guilhermina, minha bisavó, tinha sido internada porque tinha passado mal. Eu não lembro muito bem o que aconteceu, também nem procurei saber muito porque aquilo, para mim, era apenas a idade. Eu entendia que a fragilidade da saúde de vovó Guilhermina era porque ela já se encontrava velhinha, com seus 88 anos.

Foi mais ou menos um mês de idas e vindas ao Hospital do Coração, de visitas a UTI e de um coma que já não acabava mais. Vovó Paé contou para mim que tentou conversar com a mãe dela antes do coma, perguntando se ela sabia quem era. Vovó Guilhermina, que já não estava muito consciente, disse: “não é Dunga? É Alexandre”.

Numa sexta-feira à noite, enquanto eu ficava aperreando mainha para a gente assistir “Carandiru” no cinema, pois só poderia assistir ao filme acompanhado de um maior de idade, o telefone tocou. E, como era tio Hércules e muito raramente tio Hércules ligava lá para casa, eu já imaginava qual era a notícia.

Mainha ficou chorosa, com o rosto mais vermelho do que o usual. Começou a ligar para outras pessoas e a informar que vovó Guilhermina tinha morrido. O meu cinema de sexta-feira furou, além de que o sábado seria dia de enterro. O domingo, que já seria um dia das mães sisudo com a situação da bisavó, só se tornaria um pouco mais lamentável.

No cemitério, já se encontrava diversos familiares ao redor do caixão, dentro da capela. Eu não consegui entrar e fiquei escutando a missa do lado de fora, observando a situação distante juntamente com minhas duas irmãs mais velhas. Lembro que o clima estava muito agradável, lembro como eu achei ótimo as meninas da ginástica terem ido ao enterro e dá um apoio para vovó Paé. Lembro também o quão eu fiquei incomodado com pessoas usando óculos escuros dentro de uma capela, como se fosse vergonhoso mostrar lágrimas em um enterro.

Até o fim da missa, eu não chorei. Só que a minha avó Paé, que até então não tinha falado nada, se pronunciou. Não lembro muito bem quais foram as palavras delas, mas a mensagem foi mais ou menos assim: “Quando eu era criança, mamãe tinha a pele muito vermelha e desgastada. Ela achava que aquilo era contagioso e pedia para a gente não ficar abraçando ela. Só que aquilo não era contagioso. Hoje eu percebi que não vou poder mais abraçá-la. Queria dizer para vocês, filhos e netos, que sempre que puder abraçar seu pais, sua mães ou seus avós, abrace-os”.

Aquelas poucas palavras fizeram com que eu e as minhas irmãs se aproximassem para dentro da capela. E, se até então eu estava mais atento em pequenas bobagens, eu percebi que vovó Guilhermina iria fazer falta para muita gente. Foram as palavras de vovó Paé, juntando-se ao corpo daquela velhinha dentro de um caixão, que fizeram com que eu começasse a chorar.

O choro, no entanto, se intensificou, porque eu fui me sentar ao lado da minha mãe, que soluçava na primeira cadeira em frente ao caixão. Ela, que estava muito abalada, encostou a cabeça no meu ombro. Eu poderia ter pego as palavras de vovó Paé e ter abraçado minha mãe, mas eu me senti tão frágil que não consegui fazer isso.

A lição que acabara de ser ensinada, que era de fazer demonstrações de afeto enquanto a gente pode demonstrar, já não era cumprida. Posso não ter abraçado a minha mãe naquela hora, mas a mensagem ficou. Até hoje essas palavras meVovó Paé me disse que as histórias tristes a gente deve escrever na areia. Eu entendo esta mensagem, mas peço licença para escrever uma história triste, porque algumas palavras sobre o ato de abraçar decorrem desta história.

Era 2003, mainha tinha ido para a casa de vovó. Quando voltou, eu perguntei como tinha sido lá. “Sua vó foi direto de Cajueiro para o hospital. Ela disse que chegou lá 'toda cafajeste' e que o médico nem tinha dado atenção para ela. Mas ela falou que conseguiu ver vovó Guilhermina”.

Depois daquele dia, eu comecei a chamar pessoas mal-vestidas de “toda cafajeste”. Rio sempre porque lembro de vovó Paé falando “toda cafajeste”. Mas também naquele dia a mãe de vovó Paé não votaria mais para a casa. Vovó Guilhermina, minha bisavó, tinha sido internada porque tinha passado mal. Eu não lembro muito bem o que aconteceu, também nem procurei saber muito porque aquilo, para mim, era apenas a idade. Eu entendia que a fragilidade da saúde de vovó Guilhermina era porque ela já se encontrava velhinha, com seus 88 anos.

Foi mais ou menos um mês de idas e vindas ao Hospital do Coração, de visitas a UTI e de um coma que já não acabava mais. Vovó Paé contou para mim que tentou conversar com a mãe dela antes do coma, perguntando se ela sabia quem era. Vovó Guilhermina, que já não estava muito consciente, disse: “não é Dunga? É Alexandre”.

Numa sexta-feira à noite, enquanto eu ficava aperreando mainha para a gente assistir “Carandiru” no cinema, pois só poderia assistir ao filme acompanhado de um maior de idade, o telefone tocou. E, como era tio Hércules e muito raramente tio Hércules ligava lá para casa, eu já imaginava qual era a notícia.

Mainha ficou chorosa, com o rosto mais vermelho do que o usual. Começou a ligar para outras pessoas e a informar que vovó Guilhermina tinha morrido. O meu cinema de sexta-feira furou, além de que o sábado seria dia de enterro. O domingo, que já seria um dia das mães sisudo com a situação da bisavó, só se tornaria um pouco mais lamentável.

No cemitério, já se encontrava diversos familiares ao redor do caixão, dentro da capela. Eu não consegui entrar e fiquei escutando a missa do lado de fora, observando a situação distante juntamente com minhas duas irmãs mais velhas. Lembro que o clima estava muito agradável, lembro como eu achei ótimo as meninas da ginástica terem ido ao enterro e dá um apoio para vovó Paé. Lembro também o quão eu fiquei incomodado com pessoas usando óculos escuros dentro de uma capela, como se fosse vergonhoso mostrar lágrimas em um enterro.

Até o fim da missa, eu não chorei. Só que a minha avó Paé, que até então não tinha falado nada, se pronunciou. Não lembro muito bem quais foram as palavras delas, mas a mensagem foi mais ou menos assim: “Quando eu era criança, mamãe tinha a pele muito vermelha e desgastada. Ela achava que aquilo era contagioso e pedia para a gente não ficar abraçando ela. Só que aquilo não era contagioso. Hoje eu percebi que não vou poder mais abraçá-la. Queria dizer para vocês, filhos e netos, que sempre que puder abraçar seu pais, sua mães ou seus avós, abrace-os”.

Aquelas poucas palavras fizeram com que eu e as minhas irmãs se aproximassem para dentro da capela. E, se até então eu estava mais atento em pequenas bobagens, eu percebi que vovó Guilhermina iria fazer falta para muita gente. Foram as palavras de vovó Paé, juntando-se ao corpo daquela velhinha dentro de um caixão, que fizeram com que eu começasse a chorar.

O choro, no entanto, se intensificou, porque eu fui me sentar ao lado da minha mãe, que soluçava na primeira cadeira em frente ao caixão. Ela, que estava muito abalada, encostou a cabeça no meu ombro. Eu poderia ter pego as palavras de vovó Paé e ter abraçado minha mãe, mas eu me senti tão frágil que não consegui fazer isso.

A lição que acabara de ser ensinada, que era de fazer demonstrações de afeto enquanto a gente pode demonstrar, já não era cumprida. Posso não ter abrVovó Paé me disse que as histórias tristes a gente deve escrever na areia. Eu entendo esta mensagem, mas peço licença para escrever uma história triste, porque algumas palavras sobre o ato de abraçar decorrem desta história.

Era 2003, mainha tinha ido para a casa de vovó. Quando voltou, eu perguntei como tinha sido lá. “Sua vó foi direto de Cajueiro para o hospital. Ela disse que chegou lá 'toda cafajeste' e que o médico nem tinha dado atenção para ela. Mas ela falou que conseguiu ver vovó Guilhermina”.

Depois daquele dia, eu comecei a chamar pessoas mal-vestidas de “toda cafajeste”. Rio sempre porque lembro de vovó Paé falando “toda cafajeste”. Mas também naquele dia a mãe de vovó Paé não votaria mais para a casa. Vovó Guilhermina, minha bisavó, tinha sido internada porque tinha passado mal. Eu não lembro muito bem o que aconteceu, também nem procurei saber muito porque aquilo, para mim, era apenas a idade. Eu entendia que a fragilidade da saúde de vovó Guilhermina era porque ela já se encontrava velhinha, com seus 88 anos.

Foi mais ou menos um mês de idas e vindas ao Hospital do Coração, de visitas a UTI e de um coma que já não acabava mais. Vovó Paé contou para mim que tentou conversar com a mãe dela antes do coma, perguntando se ela sabia quem era. Vovó Guilhermina, que já não estava muito consciente, disse: “não é Dunga? É Alexandre”.

Numa sexta-feira à noite, enquanto eu ficava aperreando mainha para a gente assistir “Carandiru” no cinema, pois só poderia assistir ao filme acompanhado de um maior de idade, o telefone tocou. E, como era tio Hércules e muito raramente tio Hércules ligava lá para casa, eu já imaginava qual era a notícia.

Mainha ficou chorosa, com o rosto mais vermelho do que o usual. Começou a ligar para outras pessoas e a informar que vovó Guilhermina tinha morrido. O meu cinema de sexta-feira furou, além de que o sábado seria dia de enterro. O domingo, que já seria um dia das mães sisudo com a situação da bisavó, só se tornaria um pouco mais lamentável.

No cemitério, já se encontrava diversos familiares ao redor do caixão, dentro da capela. Eu não consegui entrar e fiquei escutando a missa do lado de fora, observando a situação distante juntamente com minhas duas irmãs mais velhas. Lembro que o clima estava muito agradável, lembro como eu achei ótimo as meninas da ginástica terem ido ao enterro e dá um apoio para vovó Paé. Lembro também o quão eu fiquei incomodado com pessoas usando óculos escuros dentro de uma capela, como se fosse vergonhoso mostrar lágrimas em um enterro.

Até o fim da missa, eu não chorei. Só que a minha avó Paé, que até então não tinha falado nada, se pronunciou. Não lembro muito bem quais foram as palavras delas, mas a mensagem foi mais ou menos assim: “Quando eu era criança, mamãe tinha a pele muito vermelha e desgastada. Ela achava que aquilo era contagioso e pedia para a gente não ficar abraçando ela. Só que aquilo não era contagioso. Hoje eu percebi que não vou poder mais abraçá-la. Queria dizer para vocês, filhos e netos, que sempre que puder abraçar seu pais, sua mães ou seus avós, abrace-os”.

Aquelas poucas palavras fizeram com que eu e as minhas irmãs se aproximassem para dentro da capela. E, se até então eu estava mais atento em pequenas bobagens, eu percebi que vovó Guilhermina iria fazer falta para muita gente. Foram as palavras de vovó Paé, juntando-se ao corpo daquela velhinha dentro de um caixão, que fizeram com que eu começasse a chorar.

O choro, no entanto, se intensificou, porque eu fui me sentar ao lado da minha mãe, que soluçava na primeira cadeira em frente ao caixão. Ela, que estava muito abalada, encostou a cabeça no meu ombro. Eu poderia ter pego as palavras de vovó Paé e ter abraçado minha mãe, mas eu me senti tão frágil que não consegui fazer isso.

A lição que acabara de ser ensinada, que era de fazer demonstrações de afeto enquanto a gente pode demonstrar, já não era cumprida. Posso não ter abraçado a minha mãe naquela hora, mas a mensagem ficou. Até hoje essas palavras me tocam profundamente. Se vovó Paé colocou “cafajeste” no meu vocabulário, ela também fez com que eu aprendesse a importância de abraçar e, sobretudo, que o melhor dia de demonstrar afetos para parentes e companheiros é o dia de hoje, antes que fique tarde demais.açado a minha mãe naquela hora, mas a mensagem ficou. Até hoje essas palavras me tocam profundamente. Se vovó Paé colocou “cafajeste” no meu vocabulário, ela também fez com que eu aprendesse a importância de abraçar e, sobretudo, que o melhor dia de demonstrar afetos para parentes e companheiros é o dia de hoje, antes que fique tarde demais. tocam profundamente. Se vovó Paé colocou “cafajeste” no meu vocabulário, ela também fez com que eu aprendesse a importância de abraçar e, sobretudo, que o melhor dia de demonstrar afetos para parentes e companheiros é o dia de hoje, antes que fique tarde demais.sagem ficou. Até hoje essas palavras me tocam profundamente. Se vovó Paé colocou “cafajeste” no meu vocabulário, ela também fez com que eu aprendesse a importância de abraçar e, sobretudo, que o melhor dia de demonstrar afetos para parentes e companheiros é o dia de hoje, antes que fique tarde demais.e intensificou, porque eu fui me sentar ao lado da minha mãe, que soluçava na primeira cadeira em frente ao caixão. Ela, que estava muito abalada, encostou a cabeça no meu ombro. Eu poderia ter pego as palavras de vovó Paé e ter abraçado minha mãe, mas eu me senti tão frágil que não consegui fazer isso.

A lição que acabara de ser ensinada, que era de fazer demonstrações de afeto enquanto a gente pode demonstrar, já não era cumprida. Posso não ter abraçado a minha mãe naquela hora, mas a mensagem ficou. Até hoje essas palavras me tocam profundamente. Se vovó Paé colocou “cafajeste” no meu vocabulário, ela também fez com que eu aprendesse a importância de abraçar e, sobretudo, que o melhor dia de demonstrar afetos para parentes e companheiros é o dia de hoje, antes que fique tarde demais.